Quem agora se declara surpreso com o resultado das eleições em Londrina, este deve ser novato e não sabe que em política eleitoral, surpresas aqui não acontecem. Tudo o que acontece já aconteceu outras vezes, portanto é um fato natural. A verdade, sem surpresa, é que Londrina sempre foi politicamente rebelde. Já outrora votara inúmeras vezes na oposição - para prefeito, deputado estadual, deputado federal e senador - quando alguns queriam que a cidade fosse situação, marcadamente no período da ditadura militar.
Estas últimas duas semanas, culminando com as eleições, foram momentos para muita reflexão. Começamos com a epopéia das Olimpíadas, a nos mostrar que precisamos conquistar muitas medalhas anteriores, antes de pretender as olímpicas. Estas são consequências daquelas, não o inverso. Também não pensem os comentaristas esportivos e vários atletas - que disso tanto falaram - que para ganhar medalhas, apenas precisamos começar por projetos de base contemplando puramente o esporte. Não se criará base alguma se não pensarmos, primeiro, na implantação e desenvolvimento de políticas sociais que privilegiem sobretudo crianças e adolescentes, com melhor alimentação e melhor saúde, melhor moradia, melhor educação, o que resultará em segurança, disciplina, autoconfiança, dignidade, e estará plantada a base de todas as coisas. A partir daí, conquistar medalhas olímpicas e outros títulos esportivos será apenas uma natural consequência.
E o resultado das urnas, sobretudo nos grandes colégios eleitorais do País, é a bandeira do protesto que se levanta contra a desastrada política econômica do governo ora instalado em Brasília, cujos dias de acabar os cidadãos estão contando, qual encarcerados que vão somando, com riscos na parede, os anos e meses cumpridos e o tempo que falta para deixar o martírio da prisão.
Em Londrina não houve surpresa. Pesou sobre o candidato Hauly o fato de pertencer ao sistema. A expressiva votação que teve foi por seu mérito; a que não teve foi pelo demérito de FHC.
Sobre Farage pesou ter permitido o apoio de Belinati, sem o qual poderia ter chegado ao segundo turno. Eleitores simpáticos a Farage deixaram de votar nele não por temer que, uma vez no poder, permitisse a Belinati ingerir em sua administração - o que, sabidamente, não é do estilo do prefeito cassado - mas optaram por outros candidatos justamente para não dar a Belinati o prazer de proclamar que elegeu o prefeito.
O homem-fenômeno da política londrinense - que nesta eleição acabou encarnando a candidatura, pois, muito convenientemente, infiltrou-se nela - foi vítima dele mesmo: criou um Belinati imbatível, o Belinati cassado, e este o derrotou. O Belinati antigo não conhecia este novo Belinati e o subestimou, por extensão subestimando a inteligência popular.
Então, não houve surpresas nesta eleição; não houve surpresa no percentual de rejeição ao candidato partidário de FHC; não houve surpresa na ascensão de Barbosa Neto, o novo Belinati quanto ao estilo; também não houve surpresa com a pouca votação de Luiz Eduardo Cheida, que em seu mandato de prefeito pecou por deixar-se cercar em demasia pelos teóricos do partido, e houve muito desperdício de tempo em reuniões de teorização ideológica.
A opção então, sem surpresa, haveria de ser Nedson Micheleti, ademais declaradamente apoiado pelo poder da Igreja Católica. E sem surpresa, Nedson será o prefeito de Londrina, porque já tem cativos os seus 64.705 eleitores declarados, do primeiro turno (contra os 64.470 também cativos de Barbosa), e ainda receberá grande parte dos votos dados a seu companheiro de jornadas ideológicas Luiz Eduardo Cheida; de grande parte dos votos de seu ex-companheiro de parlamento Luiz Carlos Hauly, e parte dos votos dados a Farage Kouri. Isto independente das opções que vierem a tomar os candidatos não disputantes e seus partidos.
Teria sido melhor para Barbosa se tivesse como concorrente qualquer um dos outros três.
Hauly volta ao cargo de deputado federal, e pode cristalizar seu amor por Londrina, declarado na campanha, ajudando o prefeito que assumir em janeiro. Cheida tem cacife para eleger-se deputado estadual, ou mesmo federal, e trabalhar por Londrina na qualidade de parlamentar, ou - bom que ele é em questões sociais e de saúde pública - poderia muito bem ser o convidado do novo prefeito para ser seu secretário. E Farage, com forte predisposição para a vida pública e que na campanha para deputado federal recebeu 37 mil votos, tem muitas oportunidades pela frente e respeitáveis bases de apoio, sobretudo na classe empresarial, que desta vez não ficou com ele pela incômoda presença de Belinati em sua garupa.
Nedson prefeito, Hauly deputado, Cheida secretário, Farage voltando a capitanear sua empresa de mais de 1.000 empregados, Barbosa exercendo a função social que se cobra de um comunicador, e pronto: estão todos aproveitados.
Uma renovação de quase 60% se opera na Câmara Municipal, enriquecida com o ingresso de mais duas mulheres, formando-se agora um vigoroso trio de bem votadas. E de muito bom nível. Todo o corpo legislativo, desta vez, melhorou seu padrão.
E o fato novo, embora também não surpreendente: a supervotação da vereadora Elza Correia, que com seus 8.992 votos se qualifica para sentar-se à cabeceira da mesa de seu partido, em Londrina, e pleitear o que desejar, destacadamente a legenda para ser a próxima candidata do PMDB à prefeitura.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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