Alguém estranho que chegasse hoje a Londrina, perguntasse o nome do prefeito e percorresse a lista dos candidatos a sucedê-lo, imaginaria que estivesse no Líbano, ou que esta cidade foi colonizada por árabes. Cinco compõem a Conexão-Esfiha.
E se jogar uma, sai briga.
Pensou-se sempre que os árabes fossem apenas mercadores, mas se vê que também apreciam o poder político. Não à toa tivemos no Paraná um deles que ficou no poder 40 anos, e mais ficaria não tivesse se cumprido seu mandato terreno.
Londrina já teve prefeito mineiro, cearense, paulista, piauiense, capixaba, mato-grossense, mas nenhum paranaense. Portanto, nem londrinense, e também não o terá agora, pois nenhum dos candidatos nasceu aqui.
Nesta cidade que torce para times paulistanos e conhece mais a Avenida Paulista que a Rua XV (ou será XXV?), não é de estranhar. Também não admira que as ruas de seu grande quadrilátero central tenham os nomes dos Estados, e que a artéria principal, que foi o caminho de chegada dos pioneiros – a Avenida Paraná – acabou bipartida em Avenida Garcia Cid e Calçadão. Lembrança dela só nos envelopes de correspondência, com tendência de desaparecer de vez. As marcas paranaenses parece que vão se apagando, por aqui.
Nem o atual governador pensa Londrina paranaense, pois mal a conhece e aqui veio pouquíssimas vezes, e quando veio – dizem – errou a estrada. E o poderoso deputado e presidente vitalício da Assembléia teria vindo uma vez apenas, em quatro décadas. Talvez haja aí um exagero, pois há quem afirme que ele veio duas vezes.
Mercadores históricos, os árabes que aportaram no Brasil nunca seriam agricultores, porém hábeis comerciantes. Inigualáveis no que fazem. Poucos são os árabes pobres, e se um deles houver, será apenas por um tempo, porém se isto se revelar permanente então não se trata de um árabe nem descendente. Terá sido erro de cartório...
Descendentes dos fenícios, os árabes herdaram deles a vocação para o comércio. Sabem como ganhar dinheiro, pois têm uma intimidade com ele, e não por ganância, eis que não o acumulam mas lhe dão giro adquirindo bens. São, portanto, grandes investidores e gastadores, e assim semeiam riqueza, e mais riqueza colhem. Não maldizem os que enriquecem, antes se identificam com eles. Cultuam a abundância e a alcançam. Têm a mesa sempre farta e são pródigos em convidar. Constituem famílias unidas e têm respeito pelos patriarcas. Ao cumprimentarem-se, beijam-se na face, homens inclusive. Trabalham muito e não descuidam do negócio. Partindo de uma mala de mascate, têm extraordinário talento para expansão do negócio, e dificilmente falham. Se caem, levantam-se. Começam com uma ‘‘lojínia’’ e constroem impérios.
Foram seus ancestrais fenícios que inventaram a moeda, e, naturalmente, logo viram que ela poderia somar-se e multiplicar-se... Antes eles comerciavam pelo sistema de trocas, levando seus barcos para o alto-mar, onde se encontravam com outros mercadores e intercambiavam mercadorias. Depois deles, os árabes haveriam de inventar os números.
Contam do patriarca que estava à morte, os filhos reunidos, e ele foi perguntando: ‘‘Onde está Nagib? - Está aqui, papai. - Onde está Jamil? - Está aqui, papai. - Onde está Rachid? - Está aqui, papai. - Onde está Sara? - Está aqui, papai. - Onde está Samira? - Está aqui, papai. Estão todos aqui’’.
E ele, em protesto: ‘‘Mas ninguém ficou no loja?!’’
Por que sírio-libaneses? Porque antes só havia a grande Síria, o Líbano dentro.
E por que eles não gostam de ser chamados de turcos? Por que não são turcos, eis que turcos são da Turquia. Mas não é esta a razão, e sim porque os turcos os dominaram por 400 anos, de 1500 a 1900. Os primeiros imigrantes que aportaram no Brasil datam de 200 anos atrás, portanto aqui chegavam com passaporte turco, e os brasileiros, naturalmente, os chamavam de turcos. Muito a contragosto destes ‘‘batrícios’’, que nunca deixaram de emigrar para o Brasil, tanto que são 8 milhões, hoje, em nosso País, contando-se os descendentes – contra 3 milhões no Líbano e outros 4 milhões na Austrália, Europa e outros países. O Brasil tem a nação sírio-libanesa mais populosa do mundo. Não é à toa que, na Copa da França, todos os sírio-libaneses do mundo torceram para o Brasil, porque eles amam os brasileiros. Talvez um sentimento de gratidão pela acolhida dada aos seus.
Na campanha eleitoral, uns vão chegando, estendem a mão, fazem uma promessa, pedem o voto. Turquinio não, turquinio é jeitoso. Cumprimenta, faz elogios: ‘‘Nenê bonitinia! E lojinia, sempre cheia! E este, também filho? Tem jeito inteligente. Obedece mamãe-babai, filho! Deus bençoa, Deus bençoa tuda família!’’
Scaff, Farage, Hauly, Cheida, Assad.
Mas, e quem ficou no loja?!?
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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