Walmor Macarini Fazer as pazes com o dinheiro Isto mesmo, fazer as pazes com o dinheiro. Porque as pessoas estão sempre em conflito com ele, e então ele se retrai, afasta-se. Mas por que estamos falando de dinheiro? Porque, no Brasil, o ano 2000 está começando agora, passado o período de férias, de praias, passado o carnaval, e todos ‘‘correm atrás do prejuízo’’, como dizem. E é certo que, se correm atrás dele, acabam alcançando-o... Não será melhor mudar de trilha e correr atrás do lucro? Então, se o dinheiro tem sido o motivo de nossas preocupações, de felicidade mas também de angústias, bom será um acordo com ele. Todos precisam de dinheiro, mas não o amam e sim o amaldiçoam com afirmações como a de que o dinheiro é curto, é difícil, que é ‘‘coisa do diabo’’. Que tal imaginar que é de Deus? Este o sentido de amar o dinheiro, assim como devemos amar todas as coisas de que nos servimos. Amá-lo não é apegar-se a ele, brigar por ele, morrer e matar por ele, mas aceitá-lo harmoniosamente, tratá-lo com respeito, porque dinheiro é resultado do nosso trabalho, e se nosso trabalho é digno, também é digno o soldo que recebemos por ele. Dinheiro não é algo ruim, é bom tê-lo. Mas não deve ser encarado como uma riqueza em si mesmo, porém como um instrumento de troca. Não deve ser um fim, mas um meio. Sua função é girar, do contrário não terá serventia alguma, então ele é nosso mas é de todos, é de todos e é também nosso. Por isso não é difícil alcançá-lo. Dinheiro não é como uma carteira de identidade, que tem estampado o nome de seu dono. É impessoal, e justamente por isso foi idealizado da forma que é. Uns o têm mais, outros menos. De qualquer forma sua função não é ser acumulado e sim fazer seu giro e ir semeando riqueza. Foi criado para andar, passar de mão em mão, ser gasto, e de preferência ser gasto bem. Se não gastamos o dinheiro ele se esgota. Assim como o poço: se paramos de tirar água ele secará, porque sem uso as vertentes se entupirão. Do poço, quanto mais água se tira mais água verte. Assim o dinheiro: ele entra mas precisa sair, fazer o seu fluxo, e quanto mais rápido melhor. Se ao invés de colocá-lo na poupança compramos a roupa para o filho que está precisando, damos emprego à costureira, que pagará a conta do açougue e este pagará a conta do frigorífico, que comprará do fornecedor da fazenda, que garantirá o emprego do peão, que comprará o aparelho de som na loja, que acionará a fábrica, que gerará o imposto, que possibilitará obras públicas, que darão empregos... É a reação em cadeia, cujo resultado é a explosão desenvolvimentista. Quem aprisiona o dinheiro não o estima, e assim o dinheiro buscará desgarrar-se dessas mãos que o prendem. Mas o pior, mesmo, é o poder da palavra demolidora. É comum ouvir-se: ‘‘Como posso viver com essa m... de salário que ganho?’’ Com um decreto destes, amaldiçoando o salário e por extensão o emprego, aí tudo emperra. É preciso imaginar que este dinheiro tem pernas longas, que se o chamamos ele vem, e se o acariciamos ele vem mais vezes. Não devemos nos sintonizar na limitação, mas na abundância. Nas notas do Real está escrito ‘‘Deus seja louvado’’. Alguém ainda não havia percebido? Na unidade do dólar os americanos cunharam ‘‘In God we trust’’ (‘‘Nós confiamos em Deus’’). Deus está no dinheiro, e não é à toa que o dólar é a moeda mais forte do planeta. Nós resolvemos inserir a nossa frase de louvor só recentemente, por isso estamos atrasados... É preciso, sempre, ser grato ao dinheiro pelos benefícios que nos traz, e proclamá-lo bem-vindo. Ao agradecer pelas dádivas que temos está implícito o agradecimento à Fonte criadora. Pessoas vêem um bonito carro que passa, mas ao invés de admirá-lo enchem-se de inveja de quem o possui, quando deveriam imaginar-se dentro de um igual, vislumbrando-o na própria garagem, passando a flanelinha nele... É isto: temos que passar a flanelinha da carícia mental nas coisas que queremos e elas se aninharão junto de nós, como um cãozinho faceiro abanando o rabo... As imagens que criamos, com convicção, se cristalizam. Tudo aquilo em que fixarmos nossa vontade acabará se concretizando, até porque somos impulsionados a buscar a coisa desejada, às vezes sem o percebermos, e acabaremos descobrindo o caminho de chegar a ela. Quantas vezes não se ouviu alguém dizer, diante de um bem que admira: ‘‘Tão bonito, mas tão caro. Isto não é para mim’’. Então não será, porque a porta já foi trancada pela própria pessoa. Como acontece de certas pessoas ficarem ricas e outras não? A primeira idéia que nos assoma, acerca do rico, é que é desonesto e explorador. Há casos que sim, mas serão todos os casos assim? Acontece que o rico sintonizou-se mais na riqueza que o outro. Sorte e azar não existem, mas se nos declaramos azarados entramos na frequência do azar. Porém o mais pobre dos pobres é aquele que, conformado com seu infortúnio e afundado em sua própria descrença, diz que ‘‘foi vontade de Deus’’...Este terá que explicar-se, por tamanha injúria, quando chegar lá... Isto não invalida que pensemos na situação do pobre e busquemos ajudá-lo, mas uma boa ajuda é colocá-lo a prumo e fazê-lo compreender sua própria potencialidade. Nunca é demais repetir: a vida nos dá o que esperamos dela. WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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