Walmor Macarini
Walmor Macarini Fiquemos atentos à anterioridade Quando um fato irrompe, não significa que tenha tido origem em si mesmo; é sempre uma consequência, a erupção de algo que já estava em plena ebulição. Ficássemos mais atentos e identificaríamos, bem antes, os seus sinais. E teríamos tempo de interromper sua trajetória ou, no mínimo, amenizar suas consequências. Somos, por natureza, administradores de consequências, as superficialidades, no sentido daquilo que aflora à superfície. Ficamos recolhendo os cacos da explosão, quando poderíamos ter arrancado o estopim da bomba. Vamos falar de fatos recentes: na Prefeitura de Londrina um escândalo se manifesta, e de repente todos nos enchemos de natural indignação e dessa dolorida sensação de impotência. Porém sabemos que já aconteceu antes e que poderá ainda acontecer no futuro, mas custamos a aprender a lição. Ficamos nos lamentando pelas consequências, mas pouco nos atemos à causa, à anterioridade, aquilo que já vicejava na profundeza. Ora, sabíamos nós cidadãos, sabia a imprensa, sabiam as lideranças comunitárias, da qualidade de certo material humano de que o prefeito se valia, e sabia ele muito mais. Então, se culpa maior não lhe for imputada após as diligências que estão acontecendo, ele é no mínimo co-responsável, porque nós o elegemos para cuidar da casa e bem administrá-la. E elegemos também, com a mesma função, a Câmara de Vereadores. E, de sua parte, cuidaram os vereadores de zelar pelo patrimônio público? Como tal, prefeito e vereadores deveriam entregar seus cargos ante os escândalos que agora afloram. E como não irão fazê-lo, restaria cassar-lhes o mandato. Se não por nada, apenas pela negligência. Um dos vereadores, num rasgo de demagogia já sobejamente familiar, disse em seu discurso que se sentia um palhaço, diante da enrolação dos pares (ele incluído) para aprovar a Comissão Processante. Ora, no espetáculo sob a lona desse circo o que mais tem não é palhaço e sim malabarista... Então, todos nós sabemos que em casa de espetáculo tem também muita encenação... Depois do episódio da venda das ações da companhia telefônica, um meganegócio de R$ 186 milhões, este jornalista veio perguntando para os vereadores, quando os encontrava, onde estava guardada essa fortuna, e todos respondiam não saber. Ora, como pode um vereador e por extensão todo o corpo legislativo não saber onde estão R$ 186 milhões de dinheiro vivo, pertencente ao povo, originário da venda recente de um bem público?! Uma venda aprovada pela Câmara. E na calada da noite. Ora, não se trata de R$ 186 reais, nem R$ 186 mil, mas R$ 186 milhões, dinheiro suficiente para construir 22 edifícios com 220 flats cada um (tomo como referência o Londrina Flat Residence, que tem estas dimensões e custou R$ 8 milhões). Há a informação oficial de que já torraram todo esse dinheiro. Todo não, deixaram uma quirera de R$ 5 milhões em caixa. Então, não só o prefeito tem a obrigação de nos explicar onde estão os R$ 16 milhões da AMA-Comurb e os R$ 181 milhões das ações, mas também os vereadores, pois eles deveriam ser os guardiães do dinheiro do povo. Ou não viram por que ralo escoou toda essa grana, ou viram e não podem dizer. De qualquer maneira, descuidar da guarda de tamanha fortuna é uma forma de conivência. Agora, a primeiríssima coisa que temos que fazer é não reelegê-los. Os vereadores cassam quem tem que cassar e o povo cassa os vereadores. Outro escândalo agora é o que envolve delegados de Polícia com o crime organizado do narcotráfico. De novo, nós aqui surpresos com o episódio quando ele chega à superficie. Ora, a oficialidade no poder, quando os nomeou, conhecia a qualidade deles. Todos sempre conhecem todos. Muitas mãos guindam ao poder os homens de chefia. Então, simplesmente por este fato, são todos co-responsáveis, e se um escândalo como o de agora irrompe, todos deveriam cair, ou se tivessem grandeza renunciariam aos cargos. Mas é utopia, obviamente, esperar gesto de grandeza dos homens públicos brasileiros... E agora, não bastasse a carteira que nos batem, quem indeniza o povo londrinense pelos danos morais, ante a vergonha que sofre pelo desmando de seus governantes? Quem indeniza o povo paranaense pela execração a que é submetido, pelo escândalo em escalões elevados de seu governo? Já passa da hora, sim, de exercermos a cidadania, mas que ela não seja apenas para operar sobre consequências. Se as leis são flexíveis demais, e acabam por beneficiar o delinquente, que comecemos uma mobilização por modificá-las. E não há dúvida de que temos que começar a selecionar quem vamos eleger. E ficar de olho nas nomeações que o governo faz. Somos nós, com nosso voto displicente e nossa ausência de fiscalização sobre quem elegemos, que potencializamos neles o germe da corrupção que, no mais dos casos, lhes é inerente. Se a denominada parte sã da sociedade não extrair de seu meio os governantes que quer, ficaremos sem opção e acabaremos, de novo, por eleger os políticos... Em Londrina, a comunidade se manifesta soberanamente, agora, contudo ainda em cima de consequências. Por estes dias o prefeito vai nomear novos secretários. Vamos ver quem são. Não basta combater o mal, é preciso fazer antes a profilaxia. Se acharmos que não servem, passeata neles, faixa neles, megafone neles, berro neles! O prefeito colocou arbustos e flores na praça fronteiriça da prefeitura, visando impedir que o povo se concentre ali para protestar, mas se preciso vamos ter que pisotear as flores... Depois a gente as replanta. - WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





