Walmor Macarini Administrando superficialidades O homem, ao longo da história conhecida, tem vivido em função de administrar superficialidades. Como se esta vida que vive fosse a sua grande vida. Tudo o que faz gira em torno de questões que têm a ver com sua subsistência neste planeta, como se este fosse um princípio e um fim em si mesmo. Guarda a memória de que algo transcendente existe, mas não busca identificar o que isto seja. Prefere ocupar-se apenas do viver. Como se tivesse por função nascer, crescer, entrar para a escola e ‘‘preparar-se para a vida’’, que ‘‘é árdua’’, no dizer de todos que o cercam – família, escola, igreja, o meio social. Entra ano sai ano e ele nada mais faz que administrar coisas que tenham a ver com a autopreservação e o bem-estar, e a preservação e o bem-estar dos seus. E os filhos vão crescendo com esse mesmo conceito. A família segue o caminho da igreja e a escola segue o caminho da família, ou não necessariamente nessa ordem, mas enfim estes três pilares sustentando a relação do homem com a sua aventura terrena. Na sala de aula a criança aprende a ler e a escrever, a bem falar, a fazer contas; aprende a história dos homens, que, em síntese, é a história das suas superficialidades. Por mais que avance, chegará no máximo à graduação superior, que nada mais é que a graduação no aprendizado das superficialidades. Toneladas de livros abarrotam as prateleiras, são transpostos agora para disquetes, idéias e imagens navegam pelos infinitos espaços virtuais, mas todo este instrumental contém as mesmas superficialidades, como práticas de viver e sobreviver, administrar a saúde, exercer cidadania, melhorar tecnologias e padrões de vida, bem administrar o lazer, obter segurança e bem-estar físico, obter e difundir informações. A cultura jurídica encerra nada mais que artimanhas e sutilezas legais para livrar ou condenar. Não será esta a justiça, certamente, até porque os códigos diferem em cada país, como se fossem diferentes os homens. A ciência médica estriba-se no ideal de curar a doença, a doença já instalada, e a pesquisa visando a profilaxia dos males sustenta-se em variáveis conhecidas. Nem um passo além. Onde podem estar as grandes respostas. A escola tradicional segue metodologias que condenam o aluno a viver um terço de sua vida sentado em banco escolar, para aprender, ao final das contas, apenas superficialidades, acúmulo de conhecimentos que não o fazem nem sábio e nem feliz. A Igreja submete seus adeptos à condenação de não poderem pensar e discernir pelo seu próprio entendimento, e como tal retarda-lhes o processo de livre ser e de livre compreender. O jornalismo, o mais popular e influente gênero político e literário, perdeu-se em difundir superficialidades. E ao homem foi permitindo que afundassem em idéias de limitação e insignificância, porque isto sempre foi conveniente para as ideologias religiosas dominantes. O postulado das instituições tem sido garantir o bem-estar para os cidadãos, como se este fosse o ideal maior do ser humano, como se outra função não tivesse ele senão viver por viver, de preferência uma vida boa, e depois morrer, como um fatal predeterminismo. Perde-se o homem em divagar sobre o mistério da morte e não se detém diante de algo mais belo e grandioso que é o mistério da vida. Foi ensinado a imaginar-se pequeno, dependente de algo superior cuja compreensão lhe escapa, e ele nem faz o menor esforço para evoluir dessa situação. Entrega-se ‘‘nas mãos de Deus’’ sem também compreender que Deus é este. Imagina-o um ser que ‘‘está no céu’’, magnânimo mas também punidor. O tempo do homem é, na maior parte, destinado a trabalhar para viver, ganhar dinheiro para garantir a estrutura da família, da empresa, garantir bem-estar para si e seus dependentes, reservar um tempo para o lazer, cumprir obrigações religiosas, especializar-se nisto e naquilo para enfrentar o mundo e, afinal, melhor aprender a administrar as superficialidades. A vida pode ser mágica e bela com o uso de todos os bens terrenos – superficialidades e dinheiro incluídos – mas o homem administra mal a própria felicidade advinda da obtenção e domínio desses bens. Porque não sabe identificar a real felicidade, eis que a desconhece, por isso busca-a onde não irá encontrá-la. Há um sentido mais profundo da vida. Que não é possível explicar por palavras, porque só chegará pela descoberta de cada um. - WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina