Walmor Macarini
Poder de fogo e alvos vulneráveis
Para falar a verdade, não sei bem o que está acontecendo. Quem me pediu pra ficar aqui foi gente do Belinati que mora lá no nosso assentamento. Palavra de um pedreiro desempregado, presente à manifestação de terça-feira contra o prefeito Antonio Belinati, defronte da Câmara Municipal de Londrina.
A multidão de manifestantes (pró-prefeito) chegou em ônibus fretados pela própria prefeitura. Palavra de um funcionário municipal, em telefonema a este jornal.
Se ele ponhou (sic) a mão nesse dinheiro, não foi só ele. E se ele pegou ou não, mostra serviço. Tô com ele e não abro. Palavra de um mulher que veio do distrito de Irerê.
Eu detesto este homem. Palavra de um aposentado.
Sem o Belinati o pobre não é nada. Palavra de uma dona de casa.
Com Belinati se dá o que acontece com o Corinthians: ou você é a favor ou é contra; ou ama ou odeia. Ninguém é indiferente. Quem ama Belinati (na maioria a população pobre), ama obsessivamente; quem não o ama, o odeia de paixão, bufando pelas narinas.
Desistência de Belinati tumultua a sucessão, disse a manchete deste jornal, segunda-feira. (Referia-se ao seu anúncio de desistência de concorrer à reeleição).
O político Antonio Belinati é, de fato, um competente tumultuador. E enquanto todos se agitam com seus tumultos, ele se diverte. Ontem, na foto de primeira página deste jornal, carregado em triunfo por líderes de bairros, já demonstrava isto. Por que ele mesmo não se tumultua com nada. Declarações como esta de que não mais concorrerá, é puro experimento, pra ver o fordunço que dá. Ele articula esses movimentos com maestria e sabe exatamente o momento de acionar o detonador. Quando a bomba explode, ele ri de suas próprias artimanhas e do agito que promove.
Pode até ser que não concorra, não porém porque o tenha declarado. Concorrerá ou não conforme a conveniência do momento. Agora, ameaçado de cassação e com fogo pesado zunindo sobre sua cabeça, ele se recolhe à trincheira e tenta acalmar os ânimos da concorrência anunciando a desistência da reeleição, mas quando o tiroteio cessar ele se levanta e mete bala. E salve-se quem puder.
Belinati declarou que não tem nada a temer, e, de fato, é pouco provável que essa cassação aconteça. Ele sabe por quê.
Não estranhemos se, faltando poucos dias do prazo derradeiro para recandidatar-se, ele armar um movimento de 100 mil eleitores carregando-o nos ombros, a partir dos Cinco Conjuntos, até o centro da cidade, e então ele dirá: Foi a vontade do povo.
Tenho dito que a Dinastia Belinati veio para durar 100 anos. Vamos fazer as contas: com cassação ou não (de Belinati), Emília, sua mulher e vice-governadora, ainda não foi eleita prefeita de Londrina. Antonio Carlos, o deputado estadual filho do casal, também não. Antonio Belinati (se não for cassado) ainda não é tetra. E se chegar a tetra quererá ser penta. Emília terá ainda a sua própria reeleição, idem Antonio Carlos. E Emília ainda não terá sido triprefeita, nem tetra, nem penta. E nem Antonio Carlos. E no banco de reservas ainda está Cintia, a filha, que já foi candidata a vereador e teve expressiva votação, só não se elegendo por questão de quociente eleitoral. Todos bons de voto e amados pelas populações mais necessitadas. E depois de Cintia chegar a prefeita, a bi, a tri, a tetra e a penta, ainda tem os netos...
Claro, sobrarão os intervalos porque a lei eleitoral não permite sucessão contínua de familiares então que os concorrentes se habilitem aos intervalos...
Gracejo? Não. Realidade. Depois de todo esse tumulto dos R$ 16 milhões da AMA-Comurb (ou seriam R$ 20?, ou R$ 30?, ou R$ 50?), e dos R$ 181 milhões (de um total de R$ 186 milhões) oriundos da venda de 45% das ações da companhia telefônica e cujo destino não está suficientemente explicado, Belinati ainda detém 85% das preferências de voto, segundo as últimas pesquisas.
A família Belinati é uma empresa política. Como tal, mobilizando somas fabulosas, porque uma eleição custa caro. Essa empresa é uma instituição cuja meta é angariar votos, a sua matéria-prima e a energia propulsora que a mantém ativa. A empresa tem muita solidez. Entra muito dinheiro e sai muito dinheiro. E se esse dinheiro é também o dos cofres públicos, agora a Justiça está apurando. Mas é certo que como acontece em todos os países democráticos entra sobretudo muito dinheiro da área privada. Os membros dessa empresa política não ostentam nem luxo nem riqueza, porque não são estas suas metas e ambições, e sim ganhar eleições, para manter os cargos, que mantêm a empresa, que mantém os cargos...
Essa empresa não tem amigos, tem interesses.
Como político, Belinati é apenas o mais esperto entre os espertos. É especialista em confundir as cabeças dos que compõem o seu círculo. Quando ele diz vou, todos se apincham, e ele não foi... Quando ele diz não vou, todos se imobilizam, mas ele foi... e em grande disparada, que aí ninguém mais o alcança... Assim ele já foi vereador, várias vezes deputado estadual, deputado federal e triprefeito. Tem a memória cultivada de guardar nomes, referências pessoais, datas de aniversário, histórias de sucesso de seus eleitores, e assim não há ego que aguente...
Mas tudo isto não o exime de nos explicar onde estão os R$ 16 milhões da AMA-Comurb e os R$ 181 milhões das ações vendidas. E, se houver fraude, devolver esse dinheiro ao cofre do povo.
Antonio Belinati enfrenta o momento mais delicado de sua vida pública, mas que não se iludam aqueles cidadãos mais ingênuos e por isso puros.
Porque há canhões com muito poder de fogo e os alvos são vulneráveis.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





