Mesquinhez e prodigalidade excessiva são inimigas da prosperidade. Mesquinhez é apegar-se aos bens de tal forma que, em momentos de necessidade - própria ou de outrem - a pessoa fica com pena de gastar o dinheiro que tem e de utilizar-se de certas coisas ''muito especiais'' que possui e as deixa guardadas, esperando a ocasião propícia para usá-las. Essa ocasião às vezes nunca acontece, porque na verdade ela está presente em todos os momentos, mas não se percebe.
Pessoas guardam em casa ricas guarnições de mesa, louças de porcelana e finos cristais, mas ao invés de usá-las, as deixam empoeirar-se nas prateleiras. Cada vez que vão tirar-lhes o pó, quebram uma peça... Nunca ninguém tocou os lábios naqueles copos e naquelas xícaras. Minha amiga guardou durante anos, em caixas fechadas, peças finíssimas de cama e mesa. Um dia vendeu a casa, e enquanto não se mudava definitivamente para outra, deixou essas caixas numa chácara. Até que os ladrões as levaram. Talvez nem soubessem o valor daquilo.
Outro guardou por muito tempo garrafas de vinhos especiais, e as acariciava mostrando aos amigos aquelas raridades. Só as mostrava, e como não as abria os amigos se calavam. E de tanto expor os frascos à luz, deteriorou parte daquelas bebidas. Um dia, quando a ''ocasião especial'' chegou, viu o estrago e percebeu, ademais, que muitas garrafas estavam vazias, embora ordenadamente guardadas no lugar de sempre. As secretárias domésticas, escondidamente e um pouco por vez, foram fazendo a festa... Ao menos deram função ao vinho, que, obviamente, foi feito para ser bebido.
Um amigo novo rico tinha um Rolex, mas por temor dos assaltantes comprou uma réplica - destas de US$ 20 - e guardou o relógio autêntico no cofre. Como era abastado, os amigos pensavam sempre que o falso era verdadeiro. Comprar um falso para aparentar o autêntico, por falta de recursos, vá lá, mas ter o original e não usá-lo, melhor seria tê-lo deixado na loja. Não pode haver nada mais debilóide.
Há os que compram um Mercedes-Benz e só rodam com ele nos sábados e domingos. Um amigo que tenho guarda no armário, há meses, calças e camisas ainda com etiqueta. Ele compra e guarda. E enquanto as conserva, vai usando as roupas velhas. Quando for vestir as novas, elas certamente já estarão fora de moda.
Tudo o que não se usa atrofia, ou se quebra, ou os ladrões roubam, ou as traças consomem. Em certas casas, os sofás de finas estampas estão protegidos por um pano de lençol, e assim ficam, até que cheguem as visitas ''mais ilustres''. Como elas nunca chegam, só se sabe da beleza do sofá no momento de lavar o pano... Melhor teria sido, logo, comprar um sofá barato recoberto de plástico...
Estamos falando de pessoas com meios para possuir esses bens, mas os pobres também são assim e costumam igualmente guardar suas coisas ''especiais''. Classe média, então! Meu amigo trouxe de Manaus um moderno equipamento de som, mas como tinha um velho, foi conservando o novo na caixa, para ostentá-lo quando decorasse melhor a sala. Era um aparelho com aquelas caixas enormes de alto-falantes. Passaram-se anos. Quando um dia, afinal, resolveu inaugurar a preciosidade, já haviam inventado coisas tão mais avançadas que os filhos só riram dele. E aguentar gozação de filhos...
Paradoxalmente, perder a chance de usufruir das coisas que se tem é puro apego. Desapego é usar. Coisa boa sem uso é como pinguim de geladeira: não tem serventia nenhuma. E coisas que guardamos sem uso, se boas e ainda úteis, devem ser vendidas ou doadas para quem delas precisar. As coisas têm que servir à função para a qual foram criadas.
Se não quebramos o copo, por eventual acidente motivado pelo uso, a fábrica de copos irá à falência. Se temos em casa um piano e não o tocamos, melhor é passá-lo adiante, vendendo-o ou doando-o. Com esse ato podemos, quem sabe, revelar um Mozart... Enquanto não consumimos as coisas, a vida vai nos consumindo...
Assim com o dinheiro. Riqueza é como água de poço: quanto mais se tira mais a vertente se ativa e mais água vem. Se temos dinheiro, muito ou pouco, precisamos gastá-lo. Não há nada mais pobre do que poupança. Sabedoria é gastança. Naturalmente dentro dos limites do ganho, ou será imprudência. Mas gastar sempre. Ganhar e gastar, que assim o dinheiro circula e todos ganham. O segredo do ganhar é o gastar.
Mas no início deste escrito falamos também da excessiva prodigalidade. E o que é isso? É gastar com o supérfluo a ponto de fazer falta quando precisamos adquirir o principal. Não ter cuidado com o que se tem é, também, um cometimento que afronta as dádivas da riqueza, e ele dará o seu troco, no devido tempo. O desprezo pelo dinheiro é tão nocivo quanto o exacerbado apego por ele.
Prodigalidade excessiva é ser descuidado e facilitar que roubem nosso dinheiro e as coisas que temos. Se damos a alguém um cheque em branco poderemos estar favorecendo à tentação de a pessoa tirar proveito disso. E assim, além de perdermos dinheiro, ainda somos responsáveis, perante a lei da vida, por havermos produzido um ladrão. (Óbvio que não falamos dos casos especiais, em que não há risco.)
Se deixamos a bolsa à vista, dentro do automóvel ou em outro local, alguém poderá ser tentado a arrombar as trancas e roubá-la, ou alcançá-la onde estiver fácil. E assim criamos a vítima, e por esse fato somos responsáveis. Cometemos um delito, que se equivale ao delito do outro. O pai exageradamente pródigo com o filho pode levá-lo a não aprender o valor das coisas.
Enfim, não devemos ser mesquinhos e nem generosos por descuido. Assim devemos tratar todas as coisas. Sem apego e nem esbanjamento. Apenas viver em harmonia com elas.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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