O Evangelho, ao falar de João Batista, aplica a ele a palavra do profeta Isaías (40,3): ‘Uma voz clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, aplainai suas veredas’. E esse trecho é lembrado na liturgia do Advento, este tempo de preparação e acolhida do Natal.
O deserto, para o homem moderno, significa o vazio, a ausência, a esterilidade. Estar pregando no deserto é sinônimo de falar debalde, para uma audiência que não pode ou não quer escutar. Mas para a palavra de Deus, o deserto tem todo um outro significado. É o lugar de passagem da escravidão para a terra da libertação. É onde se dá o encontro com Deus. É o espaço da liberdade, da solidariedade e da conquista. É no deserto que Jesus sofre a tríplice tentação da riqueza, da glória e do poder. É no deserto que se refugiaram os profetas perseguidos e os cristãos à busca de Deus. Voz que clama no deserto é, portanto, a voz daquele que tem sede do Deus vivo e de sua Justiça.
A voz que clama no deserto grita para que preparemos o caminho do Senhor e aplainemos suas veredas, nivelando vales e colinas (cf Is. 40,4). O que isto significa? Quando o Profeta disse essas coisas, o povo de Israel estava exilado na Babilônia, amargando a opressão assíria. Mas já se levantava um outro império, o dos persas, que ameaçava a aparente invencibilidade babilônica. O profeta, que sabe ler os sinais dos tempos, vai além da casca das aparências e consegue vislumbrar o que parece impossível: o fim do exílio e a volta para a Terra da Liberdade, avivando no coração do povo a esperança no futuro.
Este é também o sentido do Natal. Para além dos sentimentalismos vazios e do consumismo doente, a visão do Deus-que-se-faz-Criança ilumina a história e exorciza nossos medos. A alegria do Natal nasce no silêncio do coração. Não é o risco forçado de quem se mascara com a felicidade que não possui. Mas é também a denúncia cortante de quem, na solidão do deserto, descobriu a essencialidade das coisas e a provisoriedade de tudo quanto se fundamenta no tripé riqueza-glória-poder. A Criança que nasce na estrebaria não encontrou lugar entre os homens: ‘...porque não havia lugar para eles na hospedaria’ (Lc 2,7).
No mundo da globalização, da crença no mercado como ‘verdade absoluta’ e divindade onisciente, a exclusão social é a consequência mais flagrante e bárbara. Num mundo em que a dominância do credo liberal não deixa lugar para o dos senso, os excluídos tornam-se um ‘mal necessário e inevitável’ para que se possa ter acesso ao paraíso da modernidade. Para eles, também, ‘não há lugar na hospedaria’. Mas, para incômodo da nossa civilização tão cristã e tão ocidental, ‘uma voz clama no deserto’ e manda que se preparem os caminhos do Senhor. Não adianta buscar escapatórias. Os caminhos do Senhor são a Justiça e o Direito (Sl 88,15). A vinda do Senhor é um julgamento: ‘não julgará pelas aparências e não decidirá pelo ouvir-dizer; mas julgará os fracos com equidade e fará justiça aos pobres da terra’ (Is 11,3-4). A celebração do Natal é a festa do Deus-que-salva, do Deus que traz a vida. E salvar significa resgatar todas as pessoas e a pessoa toda das estruturas que tornam os seres humanos supérfluos. A vida é para todos. Cristo se dá ao mundo para que todos tenham a vida e a tenham em abundância. Nada mais contrário ao que clama a voz no deserto que o conformismo e a anuência à criação do ‘apartheid’ social mundial que se opera em nome da modernidade.
O Natal não é a festa das luzes que iluminam os templos da riqueza nem dos enfeites que procuram esconder a opressão/iniquidade de um sistema que reduz seres humanos a cifras dispensáveis. É a festa do Emanuel, Deus-conosco, que há de endireitar os caminhos e aplainar as veredas. Só então ‘Justiça e Paz se encontrarão’, pois não pode haver sociedade pacífica sem justiça. Daí nossa súplica: ‘Orvalhai, ó céus, sobre nós, e as nuvens façam chover o Justo’. Amém.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação.

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