Há um ano multidões tomaram as ruas de todo o País em uma onda de protestos que surpreendeu não só as autoridades brasileiras como também a imprensa internacional. O embrião das manifestações foi o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo. O coro contra o reajuste de 20 centavos nas tarifas ganhou corpo e a adesão de vários segmentos da sociedade, como a classe médica e estudantes de Medicina que juntaram à multidão para se posicionar contra a vinda de médicos estrangeiros ao País. O movimento diverso pedia ainda reformas amplas na política, clamava contra o excesso de impostos, os baixos salários na educação, a combalida estrutura de saúde brasileira, a corrupção e se insurgia contra a realização da Copa do Mundo no Brasil.
Foi um período rico vivido pela democracia brasileira e, ao mesmo tempo, crítico com o violento quebra-quebra generalizado de prédios públicos e privados e o conflito entre os chamados black blocs e policiais.
Um ano depois, os protestos retornaram a algumas cidades com outras características. Especialistas ouvidos pela FOLHA observam que os novos atos têm sido mais localizados e liderados por grupos específicos. Os atores agora são garis, motoristas de ônibus, de trens e de metrôs que reivindicavam melhoria salarial. São Paulo, por exemplo, sofreu com a falta de transporte público às vésperas da abertura da Copa do Mundo. De acordo com o cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná, o cerne da questão está no controle dos sindicatos por representantes de partidos minoritários que usam bandeiras contrárias às da própria categoria. Os protestos deslocaram-se do eixo mais geral – cobrança por mudanças estruturais do País – para problemas localizados em torno dos movimentos sindicais.
Apesar de ter havido pouco avanço rumo às reformas clamadas pelas ruas, os analistas avaliam que as manifestações deixaram um legado positivo. "A sociedade deu o recado de que não é amorfa, tem opinião e vê o que está acontecendo", observa Cervi. Já o professor de ética e filosofia política Roberto Romano da Silva, da Universidade Estadual de Campinas, aponta que o retorno da população às ruas pode impactar nas eleições de outubro.

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