Voto: uma questão de confiança - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de setembro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Quando a queda nas Bolsas de Valores mais uma vez trouxe inquietude ao mundo, tendo desta vez a Rússia como ponto de partida, todos os candidatos à presidência da República do Brasil se regozijaram, com exceção do candidato-presidente Fernando Henrique Cardoso. E imaginaram os demais postulantes, que atribuindo a turbulência financeira a Fernando Henrique, poderiam desmoralizá-lo perante o eleitorado suspostamente desinformado e apavorado. Entretanto, mais zeloso que outrora do seu voto, o eleitor provavelmente indagou diante do perigo: como repercutiria a crise no Brasil se em vez de Fernando Henrique tivéssesmos como presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou Enéas, ou João de Deus, ou Eymael, ou Ciro Gomes, ou... aqueles outros? Sim, porque de modo geral as pessoas sabem que crise financeira internacional traz consequências nada desejáveis para todos os países e, assim sendo, para enfrentá-las é necessário que se tenha um governo competente.
Justamente a importância da competência e a necessidade de segurança diante do temor da crise é que fizeram com que, segundo a última pesquisa Ibope-TV Globo, as intenções de voto para Fernando Henrique Cardoso subissem 3 pontos percentuais, ficando este com 47%, e Lula perdesse 2 pontos, ficando com 23% dos votos. Um resultado inesperado para os outros candidatos que apostaram no quanto pior melhor.
Outros resultados que apareceram numa pesquisa nacional, realizada pelo Datafolha e publicada no domingo passado, são também bastante interessantes. Vejamos alguns: 54% de todos os eleitores responderam que o candidato a presidente mais bem preparado para enfrentar a crise é Fernando Henrique Cardoso. Quanto a Luiz Inácio Lula da Silva, somente 16% disseram acreditar que ele seria o mais bem preparado para enfrentar problemas advindos de questões internacionais.
Entre os eleitores de Lula, 24% disseram que FHC é o mais bem preparado, enquanto 49% acreditam que é o petista. Já entre os eleitores de Fernando Henrique, 82% julgam que ele é o mais preparado para evitar um desastre financeiro maior, e só 2% apostam em Lula.
Outro resultado curioso é o que mostram 73% dos entrevistados, afirmando que a capacidade de um candidato a presidente para enfrentar a crise econômica internacional é o aspecto mais importante para decidir o voto. 12% consideraram pouco importante a capacidade para enfrentar problemas, e 8% nada importante.
Outra pesquisa realizada pelo Ibope, e publicada também no último fim de semana, mostra resultados bastante semelhantes aos dos obtidos pelo Datafolha, confirmando a busca do eleitor por competência e seriedade diante dos problemas no candidato de sua escolha para governar o País.
Para o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, esses resultados devem ser vistos com prudência porque as pessoas não sabem como Lula reagiria, e sabem como o presidente atua. Mas será que falta mesmo base para julgamento por parte do eleitor, como afirmou Montenegro? Possivelmente não falta quando, por exemplo, o eleitor considera as promessas do candidato do PT, seus discursos televisivos e as mensagens do seu vice, Leonel Brizola.
Recordemos, então, algumas coisas sobre o que Lula e Brizola já disseram ou prometeram pela imprensa. Lula prometeu acabar com a pobreza no País. Sabe-se que isso não é possível num curto mandato presidencial. Também não será possível doar terras a 1 milhão de pessoas, conforme o candidato petista disse que faria. Para acabar com a pobreza e dar terras a 1 milhão de indivíduos seria necessário crescer a taxas de 16% ao ano, o que é completamente impossível.
Lula e Brizola, que são contra a globalização e arquiinimigos do neoliberalismo, gritaram aos quatro ventos contra a privatização do Sistema Telebrás, negando a importância da revolução das telecomunicações digitais. Aliás, o ultranacionalista Brizola prometeu acabar com as privatizações por decreto, o que significou um afago nas estatais para atrair votos para sua chapa, e a vontade de ressuscitar o antigo sonho de uma economia planificada.
Tais idéias ultrapassadas fazem contraste com a entrevista concedida à revista Veja no dia 26 de agosto, pela economista norte-americana Alice Rivlin, vice-presidente do Fed, o poderoso Banco Central americano. Quando lhe perguntaram se todos os países estão convergindo para um modelo único de capitalismo, baseado nos moldes dos Estados Unidos, ela respondeu: Isso é um exagero. Sempre vão existir maneiras diferentes de organizar as coisas. Mas tenho que concordar com a constatação de que todos os países do mundo devam convergir para um ponto: a inutilidade de uma economia centralmente planejada. Essa idéia está sepultada para sempre sob escombros do desperdício, sofrimento e ineficiência. Não vejo quem possa defender com credibilidade a proposição de voltar a trabalhar numa economia planificada.
Parece, pelo menos até o momento, que os eleitores também não vêem.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


