Voto partidário contra a simulação política
No livro Ensaio Sobre a Cegueira, o escritor português José Saramago escreveu: O que chamamos de cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis.
Essa passagem serve como metáfora do que acontece na democracia pós regime militar no Brasil, ao coincidir historicamente com a transferência da arena da disputa eleitoral das ruas, reuniões e comícios para as telas da televisão, onde em poucos segundos e minutos os candidatos tentam vender sua imagem para os eleitores, com técnicas basicamente publicitárias, como se fossem carros, cigarro ou sabão em pó.
A exposição dos candidatos nos aparelhos de TV passa a ter o privilégio na organização das campanhas, nos orçamentos e mesmo no estabelecimento de coligações, onde os minutos a que têm direito as agremiações viram moeda de troca no jogo político. É claro que há uma perda de interlocução e conteúdo na democracia, no momento em que a imagem passa a valer mais que o debate.
Mas, afinal, quem perde?
Em primeiro lugar, perde o eleitor, porque há uma superdimensionalização da oferta de imagens, sem que ele tenha tempo de viver a experiência política e de pesquisar por si mesmo a história dos candidatos, as relações políticas, econômicas e sociais que representam, assim como suas agremiações políticas.
Em segundo lugar, perdem os partidos e segmentos políticos que pregam as transformações sociais mais profundas na distribuição de renda, contrariando os interesses do grande capital. Como não têm financiamento para suas campanhas na mesma monta, disputam em condições desvantajosas, fazendo das tripas coração e da dificuldade criatividade.
Há várias alternativas possíveis para democratizar os processos eleitorais, desde o financiamento público e limitado para as campanhas, até uma alternativa de critério que pode e deve partir do próprio eleitor: essa alternativa é o voto partidário.
Ao nortear sua escolha pelo partido político, torna-se mais simples para o eleitor analisar as relações entre os candidatos locais e o que acontece no País como um todo. O que defendem os partidos desses candidatos? Como votam no Congresso, em questões de grande interesse popular? Quais suas atitudes diante dos grandes problemas nacionais? Qual a sua conduta ética e disposição em combater a corrupção? Defende canais de participação popular?
Uma avaliação assim norteada faz com o senso crítico se desenvolva com mais facilidade e que o eleitor também veja se o candidato é coerente com o partido pelo qual concorre, ou se é um simulador que muda de acordo com os ventos, podendo fazer o mesmo em relação ao que diz defender para a cidade. O voto partidário é um caminho para quebrar a cegueira luminosa das imagens pré-fabricadas.
- VALDIR GRANDINI ÁLVARES é jornalista e pesquisador das ciências da Comunicação em Londrina





