Voto de cabresto
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sexta-feira, 12 de julho de 2002
Renato Ferraz 
Na eleição de 1989, ocorreu um fenômeno curioso em alguns municípios do sertão nordestino: Lula ganhou no primeiro turno, Collor ficou em segundo e Covas em terceiro. No segundo turno, Collor ganhou em todos. Nem todos os votos dados anteriormente a Covas foram para Collor. Eleitor de Lula também mudou. Daí por que fico sempre desconfiado com as pesquisas eleitorais. Elas não conseguem captar uma ação ainda muito em voga pelo país: o voto de cabresto, mudado à força, suscetível a pressões. Basta o prefeito e os vereadores entrarem em ação. Para muitos brasileiros, está em jogo no período eleitoral o próprio futuro (o emprego, os negócios, o cimento e o trator que a prefeitura cede para uma obrazinha qualquer).
E isso não é privilégio dos lugares que cientistas sociais chamam de grotões. Vale aqui para o Distrito Federal, cuja parcela da população dependente do poder público se mantém imensa. Essa constatação pode ser sentida até nos números do eleitorado local, que, vertiginosamente, aumentou 17,8% em relação a 1998. Em todo o país, o crescimento foi de apenas 4,9%. Esses inusitados dados não seriam resultado da conhecida política de doação de lotes? Não seria por essa razão que as taxas de migração para o Distrito Federal superam as demais registradas em outras regiões?
Durante os quase oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso, várias ações descentralizadoras de poder foram tomadas. Hoje, cabe aos moradores daquele longínquo município a escolha dos conselheiros que irão gerir e fiscalizar o dinheiro da saúde ou da educação, que passou a cair em contas específicas e pode ser mais bem administrado. Mas só o correligionário de plantão participa desses conselhos de gestão e sempre sob a orientação do prefeito-tutor.
Segundo os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral, o eleitorado está mais experiente (a maioria tem mais de 35 anos), mas os jovens cada vez mais estão mostrando desinteresse pela política. Bobagem tentar entender isso que, no fundo, não quer dizer nada. O eleitor que define ainda parece ser semelhante a esse do DF, que vai para o lugar onde tem um lote, que faz o que lhe mandam. Cidadania, livre exercício do direito de voto e consciência infelizmente continuam a ser apenas palavras charmosas usadas por intelectuais.
RENATO FERRAZ é jornalista em Brasília


