Pedir é uma coisa extremamente constrangedora, pois coloca quem pede em situação de inferioridade. Isso se dá porque o que pede sempre se humilha diante daquele que tem poder para satisfazer a solicitação. Pedir é submeter-se, é exteriorizar dependência e fragilidade em relação a alguém. E se existem gradações entre rogar a Deus desesperadamente, suplicar pela vida diante do algoz, solicitar emprego, implorar perdão, exigir silêncio, pedir desculpas, em todos esses modos de expressão se encontra a idéia intrínseca da esmola, tanto para quem pede quanto para quem concede.
No momento, o que mais se vê são candidatos pedindo para serem eleitos. Há neles, mesmo nos mais ricos, qualquer coisa de esmolador. Humildemente mendigam o voto com ares modestos, com sorrisos suplicantes que pretendem agradar. Estão postados nas entradas nas escolas, nas portas das fábricas, nos pontos de ônibus. E quando não estão, seus cabos-eleitorais pedem por eles, oferecendo propagandas aos transeuntes, desfraldando faixas, fazendo tremular bandeiras. Se não são cabos-eleitorais, são outdoors de onde sorridentes candidatos trasmitem aos passantes o pedido angustiado: votem em mim.
Naturalmente, existem candidatos que simplesmente pedem votos, e candidatos que compram o voto. Em contrapartida, muitos eleitores pedem favores e vendem o voto. Isto existe, conforme assinalei no meu livro América Latina - em Busca do Paraíso Perdido, ‘‘desde que a Lei Saraiva, de 9 de janeiro de 1881, quando então instituiu-se o sistema de eleição direta, introduziu-se o título de eleitor, permitiu-se o voto dos não-católicos e dos libertos - mas excluiu-se o dos analfabetos. A exigência relativa à renda foi mantida.
Contudo, a redenção nacional estava longe de se realizar. Em Um Estadista do Império, dirá Joaquim Nabuco, caracterizando com sua forma lúcida a inoperância da lei diante da realidade social: ‘‘O que se faz é tornar o voto em massa objeto de tráfico. O efeito dessa papeleta foi o mesmo que o de uma derrama de papel-moeda: o povo supôs que emergia da pobreza e da necessidade, que tinha recebido uma renda vitalícia’’.
Houve, portanto, desde o início, uma espécie de degradação do voto. E isso continua até hoje tanto da parte dos candidatos quanto da dos eleitores, ressalvando-se sempre as exceções. Do lado dos que conseguem se eleger, o voto recebido raramente é transformado em bem comum, funcionando antes como passaporte para as facilidades e privilégios inerentes ao poder, como trampolim para novas eleições. E uma vez instalados no poder, geralmente os antes humildes candidatos que esmolavam o voto assumem a majestade dos seus cargos, encerram-se atrás dos muros, de suas grades, de suas fortalezas encantadas onde o comum dos mortais não tem acesso.
Quanto aos eleitores, hoje um pouco mais capazes de distinguir políticos sérios e competentes das aberrações políticas do gênero malandro, doido ou circense, ainda subestimam a importância do voto por não compreenderem sua força, não entenderem o alcance da delegação de poder aos que decidirão por eles, nem se importarem com o que sucederá após as eleições, pois não acompanham o desenrolar dos mandatos, nem os repetidos desmandos que acontecem nos poderes constituídos em nível municipal, estadual e federal.
Talvez os eleitores também não saibam por que os candidatos pedem tanto. É que se conseguirem se eleger se libertam do pedir. O vitorioso é aquele manda. Se o candidato se humilha, o eleito se ensoberbesse. Suas pisadas são seguras, seus passos largos, suas risadas retumbantes. E todo preço cobrado aos que alcançam o poder, como intrigas, traições, afastamentos de familiares e amigos, é pago facilmente. O eleito é um campeão político, e o maior troféu que recebe chama-se prestígio. O melhor que pode acontecer na vida de um candidato é ganhar. A maior tragédia, perder.
Nesta eleição, de quando em vez, ao atender-se ao telefone, ouve-se uma voz conhecida dizendo: ‘‘Estou pedindo votos para...’’ Nas ruas, encontramos candidatos solícitos, sequiosos de votos, que nos envolvem com abraços e efervescente entusiasmo. Abre-se um jornal e lá estão eles, rejuvenescidos nos retratos, pedindo votos com sorrisos de Mona Lisa. Liga-se a TV e quase salta da tela o frenético Enéas, disposto a detonar a bomba atômica bem no meio da sala, perto do sofá. E no desfile de candidatos que solicitam votos para realizar o sonho de se tornarem deputados estaduais, surge alguém de espanador em punho, numa reminiscência fantasmagórica de Jânio Quadros com sua vassoura piaçava para varrer a corrupção. Melhor seria que o candidato usasse um aspirador de pó, a sugerir pelo menos mais modernidade na imitação do ex-presidente.
Pede também Lula, em tom patético e açucarado que não combina com sua voz que parece sair das profundezas rochosas, a chance de chegar ao segundo turno, o que significa que já se resignou à derrota no primeiro. E parece que o petista já se prepara para concorrer pela quarta vez numa eleição presidencial, quem sabe tendo desta vez Enéas como vice. Então, teremos que ouvi-lo pedir de novo. Arre!
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina

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