Enquanto a sociedade contiver em si mesma resíduos de irresponsabilidades - um nefasto atributo das condições humanas - também os candidatos e os governantes apresentarão idênticos sintomas. E nas campanhas eleitorais afloram mais facilmente virtudes e defeitos desses postulantes, que se expõem nas vitrinas para conquistar o voto popular. A verdade é que bens e males são latentes em políticos e cidadãos, mas nos períodos que antecedem eleições os adversários procuram mais intensamente nos baús tudo o que possa denegrir os adversários.
Levantar a ficha suja (ou ao menos com essa aparência) dos disputantes deveria ser função do eleitorado, mas quem o faz são os que estão na liça, porque defendem aí não a moralidade e sim o voto que pode ser surrupiado do outro. Ao menos o processo eleitoral possibilita o revolvimento das águas turvas e coloca muitas coisas à mostra. O ideal seria que tal não fosse necessário e que as eleições fossem limpas, com candidatos do mesmo padrão de pureza. Mas para isso seria preciso operar-se o milagre de o meio social inteiro purificar-se.
Resta, portanto, à denominada parte mais consciente da sociedade apta a votar que faça a melhor escolha. Embora isso não seja garantia de pleno sucesso - porque mesmo os aparentemente bons podem mudar pelo embevecimento do poder - é um primeiro caminho. A continuidade deve ser o policiamento ao eleito, em todos os dias de seu mandato. A sociedade politicamente organizada deveria fazer isso por via dos partidos políticos, filiando-se a eles, e assim moralizá-los pelo poder do volume de seus membros, para que não sejam apenas redutos de uns poucos e potenciais aspirantes de mandatos eletivos ou cargos públicos. Mas se isto ainda não ocorre, é possível agir por outros meios. Porque - repita-se sempre - ninguém segura um povo reivindicante cheio de razão. Se a decisão de alta corte da Justiça permitiu a candidatura de nomes suspeitos, por denúncias de envolvimento com corrupção, resta a instância superior a todas que é a decisão do povo nas urnas.
A lei é o ditame frio da letra, e se estabelece que ninguém pode ser condenado sem provas e nem punido antes que um processo transite em julgado, sabem os cidadãos que provar é sempre difícil, porque quem comete um delito não passa recibo. Por via das dúvidas, é lícito ao eleitor fazer o prejulgamento e decidir segundo a sua intuição e a sua consciência. Estes são pareceres infalíveis e irrecorríveis.

mockup