A justiça norte-americana decidiu, nessa terça-feira, ampliar o número de réus no processo sobre os culpados pelo acidente do vôo 1907 da Gol, que colidiu com um jato Legacy e caiu em uma mata fechada no Mato Grosso, deixando 154 mortos. Na mesma data, a Justiça Militar brasileira rejeitou a denúncia da FAB contra cinco controladores de vôo que atuavam na região no dia do acidente. A tragédia completou um ano em 29 de setembro, mas a indignação é cada vez mais forte entre os familiares das vítimas. A FOLHA conversou com Angelita de Marchi, presidente da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907.

Após um ano, qual o sentimento dos familiares das vítimas?
Continua sendo de muita indignação. Estamos extremamente decepcionados com a conduta do processo, das investigações. A gente se decepciona com situações que poderiam ser agilizadas e infelizmente não aconteceram.

Depois de tanto tempo, as investigações ainda não apontaram culpados, é isso?
Sem dúvidas. E nós queremos a punição dos culpados. Queremos a verdade, entender o que aconteceu, afinal de contas 154 pessoas morreram. A gente não pode se conformar simplesmente que elas morreram e pronto. Alguma coisa aconteceu. Então, quem são os culpados? O que poderia ter sido feito para evitar o que aconteceu? Precisamos dessas respostas. Precisamos urgentemente que as pessoas comecem a dar a devida atenção a este problema, até mesmo para evitar novas situações como a que assistimos recentemente na tragédia com o avião da TAM.

Por que ninguém consegue achar essas respostas?
A grande dúvida de todos os familiares das vítimas é o que está por trás da verdade. O que temos visto é um jogo grande de interesses, onde cada um manipula a informação de um lado e a verdade não vem à tona. É um desrespeito à dor dos familiares e às próprias leis do nosso país.

O que a senhora achou da decisão da FAB de tentar punir cinco controladores de vôo pelo acidente?
Este é um dos pontos que causaram muita revolta. A FAB instaurou inquérito em maio, concluiu em julho e tivemos em agosto a primeira audiência em que seriam ouvidos os pilotos do jato Legacy - que não vieram ao Brasil - e também os controladores de vôo. Mas a FAB escondeu toda esta investigação, omitiu isto da Justiça Civil. Existiam perícias, informações importantíssimas que foram escondidas, sobre a conduta irresponsável dos pilotos. A Aeronáutica comprovou que pode responsabilizar os pilotos pelo crime de dolo, mas isso foi manipulado.

Como está a situação das indenizações?
Temos 110 famílias com ações correndo na justiça norte-americana, cinco famílias com ações no Brasil, e temos umas 25 famílias com acordo feito. As demais ainda aguardam para tomar a melhor decisão.

Houve algum ganho de causa?
Houve sentença favorável para uma das causas abertas no Brasil da qual a Gol já recorreu. Provavelmente vão ser aquelas causas que ficarão eternamente na justiça brasileira. Um recorre daqui, outro recorre dali, e a gente fica com dez anos de espera. Os acordos que foram feitos com a Gol, pelas informações que temos, por famílias em situações complicadíssimas, que realmente precisavam do dinheiro para resolver problemas mais urgentes. São pessoas que infelizmente vão ter suas necessidades supridas agora e problemas no futuro, porque os acordos foram de valores irrisórios.

A senhora tem vontade de ir ao local do acidente?
Tenho sim, mas não apenas sobrevoar o local. Tenho vontade de descer lá, estar junto ao que aconteceu, ver os destroços, fazer a minha última homenagem e dar o último adeus ao meu marido. Se Deus quiser vou conseguir concretizar essa vontade.

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