Há sempre que exaltar o trabalho da polícia quando descobre e prende criminosos e, às vezes, desbarata quadrilhas como aconteceu no final da semana passada em Curitiba. Esta é sua missão e para isso foi treinada, porém tal não invalida as ações de inteligência e coragem que caracterizam certas operações. Mas o que causa estranheza e questionamento é que muitos dos bandidos presos acabam em liberdade pouco tempo depois, ou porque conseguiram fugir da prisão, ou porque a fuga foi facilitada, ou porque a elasticidade da lei permitiu à Justiça liberá-los das grades. A opinião pública só toma conhecimento desses fatos quando o noticiário anuncia as fugas, a concessão de habeas corpus ou nova prisão deles mesmos, em outras diligências policiais. A população, perplexa, então se pergunta se tais indivíduos já não estavam presos e fora de ação. Ocorre que não é assim, e embora os presídios estejam superlotados e haja, só no Paraná, a estarrecedora cifra de 76 mil mandados de prisão não-cumpridos, por deficiência funcional, delinquentes que se imagina estarem presos poderão estar livres e agindo. Os cidadãos respiram mais aliviados quando têm notícia de que determinada quadrilha foi capturada, mas logo depois, ela ou alguns de seus líderes são novamente objeto de noticiário, por outro assalto ou outra prisão. Certamente que não agrada aos investigadores saber que seu trabalho foi em vão ao constatar que marginais que eles prenderam em arriscadas missões acabaram em liberdade, por alguma das formas acima apontadas. A tomar-se como base o número de criminosos frequentemente detidos e de quadrilhas desarticuladas pela polícia, não haveria mais bandidos em ação, mas a realidade é que eles têm se multiplicado - ou porque os presos acabam soltos ou então este país é um enorme reduto de foras-da-lei, a imaginar-se que um é preso hoje e outro se forma no mesmo instante. A verdade é que, se a escassez de emprego e as desigualdades sociais induzem pessoas à criminalidade, sobretudo os atentados contra o patrimônio alheio - os ''delitos da fome'' - prisão e soltura caminham paralelas, no Brasil, especialmente com relação a grandes criminosos e chefes de poderosas organizações. Essa realidade desestimula a comunidade policial e as promotorias públicas, estas agora mais do que nunca bastante presentes em suas diligências na defesa da sociedade. A flexibilização das leis e suas brechas para diferentes interpretações levam, ademais, a demorados processos e à morosidade das decisões judiciais, favorecendo a caducidade pelos decursos de prazo. Esse vício do sistema torna inócuos muitos dos serviços de inteligência da investigação da estratégia policial na ação de captura e favorecendo a impunidade, estimuladora da investida dos bandidos.

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