Você também acredita em Coelhinho?
Cláudia Prochet
Sempre que leio os jornais ou tenho acesso a qualquer tipo de informação escrita ou falada, sinto-me atraída pelas de cunho filosófico, os assuntos mais elevados ou cuja discussão seja mais aprofundada, pois, no geral, agregam conhecimento quanto aos problemas, suas causas e principalmente, mostram soluções com propriedade e leveza. Sou tomada então por pretensões literárias e pelo firme propósito de escrever de forma suave, falar de coisas belas e que tragam felicidade e tranquilidade aos leitores.
Então, enquanto tento me concentrar na filosofia, pronta para ser influenciada positivamente, ouço na televisão da sala ao lado uma notícia muito boa. Alguém está dando um presente à cidade, e na voz se traduz uma iniciativa tão generosa e de tamanha preocupação com povo que, surpreendida com fluidos imanentes, quase acreditei fosse o Coelhinho da Páscoa.
Entretanto, no caminho até a sala identifiquei como sendo de nosso prefeito a imagem que idealizara (a quem revi e ouvi após um bom tempo de ausência das cerimônias públicas que ele costumava frequentar assiduamente, e da televisão), que de tão condoído, ao mesmo tempo que magnânimo e exultante com a entrega das 500 vagas em creches para crianças carentes, deve se acreditar o próprio Papai Noel.
Não tivesse ele esquecido de mencionar a ação civil pública movida pelo promotor da Vara de Infância e Juventude, com intuito de conseguir urgentemente essas vagas, e que o número delas em Londrina é hoje deficitário em 12 mil, apropriando-se de uma iniciativa da população que, não podendo trabalhar por não ter onde deixar seus filhos, organizou-se e fez manifestações pedindo mais creches, e do Ministério Público que acionou a Justiça, poder-se-ia visualizar boas intenções.
Nesse momento, a propaganda pessoal claramente demagógica, levou por terra minha utópica intenção de falar de coisas belas, despertando-me do sonho de que a mudança seria possível embasada unicamente em elevados ideais de democracia e justiça. A administração pública, comprometida até o pescoço porque se julgava tão inatingível que sequer teve cuidados de encobrir seus rastros, age como se nada estivesse acontecendo, confiante na impunidade e seguindo em campanha.
E quando se fala em campanha, deve-se levar em conta cifras nunca inferiores a R$ 200 mil. Algumas chegam a R$ 400 mil, e isso em nível municipal ou estadual. E o mais interessante é que, na forma de explicação desses fundos à Justiça Eleitoral, descobre-se o quanto podem ser generosas as pessoas e as empresas. No caso destas, destinando a uma única pessoa, apenas para colaborar e supostamente sem exigir nada em troca, quantias que seriam suficientes para melhorar as condições de trabalho de muitos funcionários, com a instalação das já citadas creches, por exemplo, dentro das empresas, facilitando enormemente a vida do trabalhador.
Também muito curioso é observar que afora as doações, ainda existem as dívidas de campanha, que se alguém calcular na ponta do lápis, um mandato inteiro quatro anos de um salário que não é o mínimo, não será capaz de cobrir. E a mágica maior a ser observada é que embora todos os candidatos se declarem pessoas muito simples, de origem humilde e sem bens significativos e, apesar de utilizar o salário para sobreviver, ele se multiplica para comprar imóveis, chácaras, fazendas, viagens, carros importados etc.
Depois de eleitos e após o fim do mandato em que deixam os caixas quebrados, vivem de forma nababesca, com despesas e patrimônio maiores do que de tradicionais empresários locais, que por vezes deram sua vida toda para ter apenas uma relativa tranquilidade na velhice. E a nossa acomodação conivente é que torna isso possível, porque o nosso preço é muito baixo. O preço do voto do povo é uma cesta básica, uma dentadura; já o mais esperto, pede percentagem da nota fria, outro, do valor da licitação...
E assim nós vamos caminhando, vendo o dinheiro pago pelos impostos, (e aí o assalariado tem que saber que embora o imposto não recaia diretamente sobre sua renda, atinge-o quando compra cigarros, cachaça, refrigerante, comida, sabão em pó, roupas, sapatos etc.) que deveria manter as creches, os hospitais, as escolas, saindo do bolso do povo para entrar em bolsas de crocodilo, bancos e instituições financeiras internacionais e se desvinculando completamente de sua finalidade.
Talvez a magia seja pensar positivo, ganhar na Sena, rezar muito, ficar perto do dinheiro.... ou então, mesmo sem ficar milionário mas para ter direito ao básico, não ver televisão, não sair à rua, não se influenciar pela mídia eleitoral e votar naquele candidato que faz campanha subindo num banquinho e berrando no megafone, porque talvez esse ainda não tenha trocado a própria alma ou seus favores por milhares de cestas básicas.
De qualquer maneira, se um dia algum desses políticos que aí estão, puderem explicar à sociedade como essa multiplicação de patrimônio pessoal é possível e como aqueles que vivem do salário mínimo de R$ 151 (o novo) devem aplicar essa fórmula para conseguir ao menos alimentação adequada, aí sim, poderá se considerar e ser denominado de Papai Noel, e eu passarei a escrever contos de fadas...





