Você investiria em um país com alta criminalidade?
Cada brasileiro paga anualmente R$ 1,8 mil em média para sustentar a luta contra a violência. Segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria), são R$ 365 bilhões ao ano no total, o que equivale a 5,5% do PIB do País. Este valor é mais alto do que o arrecadado com os setores de construção (5,2%) ou agronegócio (5,3%).
Os dados da CNI também apontam que o setor industrial gasta mais em segurança do que em ciência e desenvolvimento. No ano passado, foram gastos cerca de R$ 30 bilhões em segurança, enquanto em pesquisa foram gastos R$ 12,5 bilhões, de acordo com os últimos dados disponíveis do IBGE.
A pergunta que fica é: você investiria o seu dinheiro em um país que gasta tudo isso com segurança?
Lembrando que investir não quer dizer sanar o problema e, muito menos, gastar da maneira correta. O Atlas da Violência de 2018 - divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra exatamente isso. Mesmo com estes gastos, seguimos batendo recordes de criminalidade. Em 2016, foram 62.517 homicídios. São sete homicídios por hora no País. O Índice Nacional de Homicídios instituído pelo Portal G1, que acompanha mensalmente as ocorrências de crimes violentos, mostra que 21.305 pessoas foram mortas nos cinco primeiros meses de 2018.
Faço outra pergunta: você traria sua família para trabalhar neste país, sabendo dessas estatísticas?
A segurança afeta diretamente a crise. Se a violência traz gastos, as empresas desistem de investir e perdemos vagas de empregos. A consequência disso é que o crime aparece novamente como a única saída para quem não tem como se sustentar. O ciclo é vicioso e cada vez mais perigoso.
É preciso manter o investimento, sim, mas de forma ordenada. Um planejamento claro e unificado para todo o Brasil, identificando as principais causas da criminalidade para atacá-las de forma assertiva. Fortalecer as políticas públicas para as famílias de baixa renda, como educação, moradia, transporte, saúde também impacta diretamente no combate à criminalidade. Prover dignidade às pessoas e alternativas de crescimento são os grandes vácuos que o Estado deixa e onde se enraíza o crime organizado.
Mas como isso afeta diretamente as indústrias que querem investir aqui?
Os custos com segurança, somados à logística e impostos, encarecem a produção. Diminuindo este valor, aumenta a produtividade e diminui o custo que chega para a população, que, com isso, consome mais. As empresas, então, abrem mais empregos e o ciclo vira positivo.
Se você fosse um empresário estrangeiro, investiria em um país com baixa criminalidade? A resposta com certeza seria sim. Este seria o cenário perfeito. Esta seria a pergunta com a qual gostaria de começar um artigo falando sobre o Brasil.
MARCO ANTÔNIO BARBOSA é especialista em segurança e diretor da CAME do Brasil
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