Você acha que o Brasil vai parar?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de novembro de 1997
Gilclér Regina 
Certa vez, num país imaginário, começou a correr a notícia de que os bárbaros iriam invadi-lo. O cidadão logo cedo, tomando o café da manhã e lendo os jornais, via estampado na capa: Os bárbaros vão invadir o país. Ao sair para levar o filho à escola e ir trabalhar, ouvia a notícia pelo rádio e, logo mais, bem estampado nos outdoors: Os bárbaros vão invadir o país. Ao chegar à noite, ligou a TV e o noticiário dava prioridade a notícia de que os bárbaros iriam invadir o país. Passados uns dias, o cidadão comprou o que pôde no supermercado, feira, etc e já não saia de casa para levar o filho à escola tampouco trabalhar. O país parou. A produção parou. Começou a se instaurar o caos. Três meses depois, o cidadão, em casa, com a barba por fazer e desanimado por não ter o que fazer, timidamente ligou a televisão e lá estava estampada a notícia: Os bárbaros não vão mais invadir o país.
O país parou segundo uma notícia vinda da boataria e isso muitas vezes é o que acontece em muitos lugares. Notadamente no Brasil, a cada situação nova ou novo plano econômico ou de emergência, especula-se muito e, na realidade, faz-se muito pouco. O Brasil precisa parar com essa mania de conjecturar tudo e todos a cada plano, a cada crise.
É certo que se construiu um país por mais de 20 anos em cima de uma grande mentira, que resultou numa catástrofe nacional chamada inflação. Nesta, a cultura ficou por muitos anos arraigada. O governo anunciava aumento de 10% na gasolina, no outro dia o cidadão reajustava o preço da pasta de dente também em 10%, quando na verdade ele estava fabricando uma situação irreal, até porque os 10% da gasolina poderiam representar um aumento de 0,4% no preço final da pasta de dente. E, assim, o país construiu e até cresceu. Cite para mim um país no mundo que hoje está convivendo com alta inflação. Até a Rússia e a Albânia que eram economias totalitárias já não sabem mais o que é inflação. Mas chegou uma hora que não dava mais.
É o caso, hoje, com o planeta se transformando num imensa aldeia global e, quando você vai ao supermercado, não tem a mínima idéia de onde são fabricados determinados produtos. Pode ser de Taiwan, da Coréia ou da China e estão, queira sim ou não, em nome da modernidade, tirando emprego de brasileiros. O brasileiro, por sua vez, tem que fazer o que a indústria nacional vem fazendo. Ou se prepara para a qualificação tecnológica ou morre. Ou se prepara ou é mais um candidato ao desemprego, lembrando que o que ontem era diferencial hoje é condição básica para conseguir um emprego novo ou se manter no atual. E, agora, não podemos resolver a situação de mentira de 20 anos do Brasil com 3 anos de plano real. E também não adianta só usar remédios com gosto de moranguinho. É preciso sentir o lado amargo também, verdadeiramente, realmente real. Porém, também é preciso bom senso por parte do governo, porque de intenções nós estamos cheios.
Não se pode mais fazer parcerias onde o Estado entra com a intenção e o povo, com o dinheiro. Aí já é sacrifício demais. Hoje se anuncia o corte de 32 mil pessoas no governo. Amanhã, quantos foram realmente demitidos ou até contratados em vez de demitidos? Isso de certa forma cheira aos tempos de Sarney, que num desses planos anunciou a demissão de 90 mil pessoas e, passados alguns meses, na verdade havia contratado uns 20 mil.
Não, o brasil não vai parar. Apesar das mazelas econômicas, políticas e sociais com as quais convivemos por aqui, esse é um país muito grande e muito forte. O potencial do Brasil é imenso e isso tem que ser repassado a partir do berço, das famílias, dos funcionários, dos empresários, de todos. Essa cultura forte de civismo e amor ao Brasil é capaz de mudar qualquer coisa e colocar o país como a maior força econômica do mundo. Mas para isso é preciso ensinar aos nossos filhos muito mais do que respeito ao país: ensiná-los a ter amor ao Brasil. Como é que uma empresa cresce e se torna forte? Somente com o comprometimento de todos. O Brasil somente será forte se houver um comprometimento de todos os cidadãos. E o governo não ficar deixando passar o tempo em nome de uma reeleição e depois vir de última hora com planos mirabolantes para resolver o problema. Quem viver, verá.


