VOCAÇÃO - Vestibular de medicina deveria ter teste de aptidão
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segunda-feira, 15 de junho de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Responsabilidade. É exatamente isso o que se espera de um profissional da medicina que diariamente lida com o que há de mais importante para o ser humano: a vida. No entanto, nem sempre a conduta profissional é a desejada. Para o microcirurgião Edson Takaki muitos jovens optam por essa carreira sem nenhuma aptidão, apenas em busca de destaque.
De modo geral como é a relação entre médico e paciente?
Essa relação mudou bastante. Com a utilização exagerada de exames, substituiu-se o exame físico pelos subsidiários (ultrassom, raio X, ressonância etc). Hoje, boa parte dos pacientes é atendida de uma maneira apressada, sem tempo de dizer o que está acontecendo. É preciso dar tempo para que o paciente diga o que sente com as palavras dele.
Como o senhor avalia o rápido atendimento que a grande maioria dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) recebe?
O Código de Ética Médico estabelece que o tempo do atendimento é o médico que determina. No entanto, se o profissional, apoiado pelo Código, nega-se a fazer determinadas coisas, ele vai ser substituído. É a lei da oferta e da procura. Os pacientes do SUS acham que não têm nem o direito de dar a mão para o médico e muito menos de serem chamados pelo nome.
Esse aligeiramento também acontece em consultas particulares...
Também. Hoje o médico atende muitos pacientes e o retorno financeiro diminuiu. Dessa forma, uma das maneiras de manter o ganho é elevando o número de atendimentos.
Muitos colocam o dinheiro em primeiro lugar...
Aí vem a questão da ambição e da ética. Hoje muitos priorizam a ambição e não a ética. Passam por cima de algumas coisas. Às vezes consciente, outras inconscientemente. O médico não tem mais tempo para conversar e examinar o paciente e acaba deixando o diagnóstico para os exames de laboratório que deveriam servir apenas para confirmar o diagnóstico realizado durante a consulta. Desde a época de estudante temos uma expectativa de ganho que muitas vezes não é alcançada. O código de ética estabelece os comportamentos do médico perante todas as circunstâncias. O que falta não são regras e sim formar pessoas para segui-las.
Claro que a faculdade é fundamental à nossa formação. Mas o bom médico já é bom antes de entrar na faculdade. Quando acontece desrespeito ao código de ética, muitas vezes, não é o médico que está errando e sim o ser humano. Ele iria agir dessa maneira em qualquer profissão que seguisse. Precisamos investir na formação da pessoa. Não adianta impor regras, pois se ela não estiver preparada, tais normas não serão obedecidas.
A carreira médica fascina muitos jovens que optam pelo curso devido ao status. O quanto isso atrapalha?
Muito. Ao ver o número de candidatos de medicina, eu me pergunto: será que tanta gente nasceu para ser médico? As pessoas colocam na cabeça das crianças que elas precisam ser ricas, famosas e poderosas e esquecem de ensiná-las a serem felizes. Ao terminar o ensino médio o adolescente, muitas vezes, acaba optando por uma profissão de maior status mesmo sem ter aptidão alguma. Antes de se inscrever para o vestibular de medicina o candidato deveria ser submetido a testes de aptidão e a exames psiquiátricos. Depois de terminar o curso não existe nenhuma avaliação, como a que os advogados são submetidos para ingressarem na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
Esses testes aumentariam a qualidade dos profissionais da medicina...
Claro que sim. As pessoas fariam o que realmente gostam e exerceriam a função com plenitude. Percebo que no momento de escolher uma especialidade, mais uma vez a pessoa escolhe algo de destaque. O indivíduo acha que vai abrir um consultório e atender um monte de madame de carro importado. Só que, às vezes, isso não acontece e precisa trabalhar em longos plantões e em múltiplos empregos. Diante disso e em busca do sonho inicial, o médico acaba se submetendo a condições até humilhantes para ganhar dinheiro. Quem perde é o paciente.
Essa conduta é preocupante e cada vez pior. Existem muitas faculdades sem as mínimas condições de ensino. Sou totalmente contra a abertura de mais cursos. Não precisamos de quantidade e sim aumentar a qualificação.


