A inauguração do Centro de Detenção e Ressocialização (CDR) vai ajudar a desafogar o sistema carcerário de Londrina - que conta com aproximadamente 700 presos condenados e mil à espera de julgamento -, mas está gerando polêmica entre moradores dos Jardins Acapulco e Del Rey, onde fica a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL).

Em protesto no último sábado, moradores da região manifestaram seu descontentamento com o retorno de presos provisórios à PEL, como defende o juiz corregedor, Roberto do Valle. ''Foi ele quem quis, prisão só na casa do juiz'', dizia uma das faixas levadas ao Calçadão pelos moradores. Nesta entrevista, do Valle responde às críticas.

Por que fazer do CDR uma unidade para presos permanentes e recolocar os provisórios na PEL?
A idéia é tirar os presos dos distritos (aproximadamente 600), onde as fugas são semanais, e levar para a PEL, que tem capacidade técnica para 640 detentos. Atualmente temos mais de 120 presos condenados na Casa de Custódia - que é para provisórios - e outros cem presos, de cidades próximas a Londrina, que não cabem na PEL. Já o CDR, que tem capacidade para 870 presos, poderia receber todos os condenados e ainda ficaria com uma folga de quase 200 presos. Além disso, o CDR é próprio para a tentativa de recuperação do condenado.

Mas os bairros não ficarão mais violentos com o retorno dos presos provisórios à PEL?
Não, isso é mentira. Quando a PEL tinha provisórios, apenas dois presos conseguiram fugir. Misteriosamente, um desapareceu lá de dentro e ninguém sabe informar como o cara sumiu. Temos informações de que o outro saiu no porta-malas de um carro, possivelmente de agente penitenciário. Essas duas fugas foram tão estranhas que não dá para acreditar que um dos dois tenha roubado bicicleta da vizinhança, como disse uma moradora à FOLHA.

Os vizinhos da PEL também reclamam que, na gestão do ex-prefeito Cheida, houve um acordo para impedir o retorno de presos provisórios...
O Judiciário nunca fez qualquer promessa. Seria até insano prometer isso. Se houve promessa por parte de algum político, é problema do político com eles.

E a desvalorização imobiliária?
Quando a PEL foi construída, existiam menos de oito famílias morando lá. Por que o resto desse pessoal construiu suas casas em volta do presídio? Eles não podem reclamar, porque se mudaram para o bairro quando a PEL já existia.

Como o senhor reagiria se fosse construído um presídio ao lado de sua casa?
Francamente, não sei o que faria. Possivelmente ficaria quieto. A história do presídio é igual à do cemitério: ninguém quer uma obra dessa perto de casa, mas é um mal necessário.

O CDR vai acabar com o pesadelo das carceragens em delegacias?
Falsa promessa eu não faço, não sou político. Se houver a inversão, os distritos ficarão de dois a três meses vazios. É tempo suficiente para fazer uma reforma e voltar a utilizá-los depois.

Recentemente, foi instituída a proibição de cigarros nos presídios do Paraná. Como ''proibir'' também as fugas, que ocorrem quase semanalmente nos DPs de Londrina - como o senhor reconhece?
Não é proibida fuga. É direito de todo animal, racional ou não, fugir da presa. Então (risos), para fugir do captor dele (é permitido).

Mas aos agentes carcerários, ou policiais, é terminantemente proibido facilitar as fugas. Como evitá-las de verdade?
Fuga em massa, de 15, 20, 40 presos, só existe em distrito policial. É um absurdo manter presos em delegacias, porque não existe pessoal suficiente para cuidar. Infelizmente, esse tipo de fuga só vai acabar quando a gente não tiver mais presos em distritos.

mockup