Viva tolerância e o debate
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 1997
Gaudêncio Torquato 
A tolerância é uma virtude da política, apesar de se saber que, dependendo das circunstâncias, ninguém está disposto a defendê-la. Tolerante é aquele que tenta compreender as razões dos outros. Tolerância é, entre outros significados, capacidade de suportar, resistência, paciência, sofrimento, piedade, respeito, cumplicidade, permeabilidade, assimilação, indulgência, acolhimento, confraternização, procura de entendimento. De tolerância, o país está carecendo. E muito. Pois ela alimenta as democracias, fortalecendo as instituições, animando os corpos políticos, oxigenando os fluxos de comunicação e abrindo as locuções dos grupos sociais.
A falta de tolerância começa com o presidente da República, quando desanca o parlamento, com uma xingação, mesmo que educada, sobre políticos demagogos, falsos defensores do povo, gente atrasada reacionária, lentidão do Congresso. Ora, os parlamentares nada mais são que o retrato fiel do país, com seu tipos, costumes, avanços e atrasos, jeitos e trejeitos. Desejar vê-los todos com a mesma roupagem é um dos sinais mais evidentes de quem quer se sentar na cadeira do autoritarismo. Procurar ver nos outros extensões de si mesmo é desrespeitar as identidades das pessoas. Nivelar a cultura política por cima não deixa de ser um dos sinais explícitos da arrogância.
Somos um país que precisa andar mais depressa, bem o sabemos. Queimar etapas no processo de alavancagem das reformas, porém, pode ser um grande risco. Como bem lembra o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, o Código Civil é uma lei respeitada porque levou 16 anos para ser aprovada. Ademais, são saudáveis as dicussões inspiradas no civismo. A sociedade brasileira está cada vez mais se organizando. Formam-se grupos, entidades, movimentos, a todo instante. A energia de um país é o pulmão do povo palpitando, gritando, mobilizando-se, participando. E se isso é um fato, como pode se constatar nas ruas dos grandes centros, nada mais justo que o Parlamento Nacional seja a expressão da energia circulante que exibe um país vivo e quente, emergente e inquieto. Que se brigue, então, por causa da Vale.
Nesse sentido, são saudáveis, também, as acaloradas discussões - com certa abordagem conceitual - em torno dos limites de poder, que, nos últimos dias, envolveram o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal. Só os tolos acreditam que o embate entre as duas intituições ameaça as instituições. Não é necessário ir longe para concluirmos que estamos ainda na adolescência de nossa vida democrática. Ou quem acha que temos o status secular das democracias européias? Ou quem acha que comemos no mesmo prato da sólida cultura norte-americana? O não das respostas sugere a mesma conclusão: a discussão é saudável. Em sendo assim, um pouco do mérito. Pode-se discordar do estilo mandonista de ACM. Ele tem razão, porém, quando critica a ausência de solidez conceitual por parte do STF, na interpretação de determinadas leis e dispositivos. Todos sabem o quanto estamos enrolados no cipoal jurídico, o que permite a juízes trafegar por caminhos divergentes em muitas unidades da Federação, mesmo que a questão seja a mesma.
Os juízes não podem se considerar figuras intocáveis, oniscientes e onipotentes, acima do bem e do mal. Até porque alguns, ultimamente, andam descendo de seus Olimpos para habitar a casa simples dos mortais. Nesse momento, pulam sobre a montaria da política, fazem pré-julgamentos, vão a fundo nas questões polêmicas, de natureza essencialmente política. ACM tem razão quando os compara a presidentes de agremiações estudantis. Que os juízes permaneçam nos seus redutos. O parlamento é o centro nevrálgico do discurso nacional. Que estas discussões continuem pelo bem a Pátria, pelo aperfeiçoamento de nossas instituições, pelo oxigênio de nossa democracia e pelo inarredável dever dos homens públicos de procurar a verdade, esteja ela onde estiver.


