Viva Curitiba. Viva? - Rasca Rodrigues
Rasca Rodrigues
Curitiba, a cidade-modelo na visão de um grupo de governantes que prestou serviços à ditadura militar na execução de políticas públicas, que ressurgiu com força e apoio popular no final da década de 80, está desestruturada e com medo. O modelo habitacional fracassou. Pessoas vivem aglomeradas em verdadeiros pombais, um do lado do outro, também chamados edifícios. A classe média da nossa cidade foi privada, com este modelo, da luz, do sol e do ar. O meio ambiente ficou muito aquém do meio. Falou mais alto a especulação imobiliária, a lógica do capital e de alguns planejadores ditos iluminados. Envergonhados, moramos calados e resignados.
O transporte urbano moderno e revolucionário não conseguiu que a classe média passasse pela roleta, mesmo tendo-o à sua porta. A demanda existente de potenciais passageiros, que utilizam seus veículos como meio de locomoção, não se confirmou, pois não o aprovaram e fugiram. O que vimos foi a explosão desenfreada da indústria das garagens, no centro da cidade. Novamente, estacionamos e pagamos calados.
A saúde urbana é tida e propagandeada como uma das melhores do País. A mortalidade infantil realmente caiu. E vem caindo desde a década de 20, com a vinda das pessoas para as cidades. A água tratada, o recolhimento do esgoto sanitário e, fundamentalmente, o trabalho da Pastoral da Criança, são os maiores responsáveis por esta conquista.
Da farmácia básica, dos 103 remédios da lista oficial, quando os há no Posto de Saúde da rede municipal, se uma dezena deles é encontrada, é muito. Os exames, mesmo os mais urgentes, demoram uma eternidade para quem está sofrendo. Mas, aqueles que governam com coração de acrílico acham que a saúde é uma questão tecnológica, basta informatizá-la e tudo estará resolvido.
Faltam leitos hospitalares. Dos que existem em nossa cidade, 66% são ocupados por doentes vítimas da dependência de bebida alcoólica. Do total das pessoas consultadas, depois de muito sacrifício, nos postos de Saúde, mais de 55% são pacientes estressados e hipertensos. A causa nunca é combatida. Igualmente, sofremos sem dizer nada.
A falta de segurança pública foi resolvida num passe de mágica. Criaram a figura do tótem ano-eleitoral, representado por um pedaço de concreto amarelo em algumas esquinas, com emblema do governo e sem a presença da polícia. Hoje, cada um deles se encontra depredado e grafitado: não funcionam. Os assaltos a bancos se tornaram corriqueiros, O número de homicídios aumenta assustadoramente. O tráfico de drogas e as drogas adentraram as escolas, atingem e viciam nossos filhos. Assustados, continuamos indefesos e mudos.
Está cada vez mais evidente que nós, sociedade civil organizada, somos impotentes e pequenos, diante da tamanha desestruturação que abateu Curitiba. Precisamos de um poder municipal e um Legislativo com representantes que tenham passado e presente comprometidos com as causas e lutas sociais; que entendam e governem nossa cidade a partir do ponto de vista do cidadão e não o inverso, como ocorre.
Fazer cidades não é só construir prédios verticais atendendo aos especuladores imobiliários e ceifando a criatividade da engenharia; não é só colocar uma canaleta para transporte de massa e não ser utilizado para quem foi construído; não é só embelezar algumas praças sem que a população esteja psiquicamente sã para visitá-la; não é fazer 600 qulômetros de antipó que, além de ser pago pelo beneficiário, vai onerá-lo com um IPTU mais alto.
Até quando a vaidade vai falar mais alto que as ações concretas? Até quando vamos aguentar calados? A cidade que queremos deverá ser bela mas, antes de tudo, deve ser justa com os contribuintes que sustentam. Deverá ter calçadas largas, que possibilitem a volta das cadeiras; deverá ter escolas sem muros e que sejam espaço de cidadania, de atividades esportivas e culturais, nos finais de semana.
Definitivamente, essa não é a Curitiba que queremos. Como não duramos para sempre, morremos. Das mortes que ocorrem em nossa cidade por causas externas, 45% são por doenças congênitas, homicídios, suicídios, acidentes de trânsito, atropelamentos, acidentes de trabalho etc., sendo 81% do sexo masculino. As causas. Ah, as causas. Elas são meras causas, uai!
O modelo fracassou. A mentira veio à tona. As consequencias são mais graves do que sabemos e muito além do que imaginamos. A guerra oculta e silenciosa da nossa Curitiba droga nossos entes queridos, mata nossos filhos que, por natureza e falta do que fazer, saem às ruas e não voltam. Transforma seres humanos em catadores de lixo e cheiradores de cola, prostituem nossas filhas e tira o direito mais sagrado do homem, o do trabalho.
Neste novo milênio, precisamos estar atentos e fortes. Conhecer e debater os problemas é, em primeiro lugar, nossa principal tarefa. O homem ou a mulher que irá governar os impostos que pagamos deverá, antes de tudo, ter compromissos claros e definidos com a sociedade civil organizada, com um passado sem manchas na defesa dos movimentos sociais e coragem para enfrentar o futuro, com a visão e a inteligência do cidadão curitibano. Chega de pretensos iluminados.





