Viva a vaia
TT Catalão
O poeta Augusto de Campos reverteu o desconforto da vaia em logomarca: viva a vaia. Eram tempos no Brasil onde a polarização política e a inteligência, sob a ditadura, estavam menos dóceis ao mercado. Caderno cultural não cobria só shows, mas provocava a distinta platéia sem o menor pudor em ser parcial e apaixonado. Esse mesmo tempo que provocou o discurso-manifesto de Caetano ao ser vaiado na tentativa de cantar sua música ‘‘É Proibido Proibir’’ – baseada nas pichações parisienses de rua do Maio de 68.
Caetano soltou o verbo em cima da platéia paulista: ‘‘Vocês querem matar o velho que já está morto?... Se vocês forem assim em política como são em estética... nós estamos perdidos’’. E a vaia comendo solta. A platéia universitária estava instigada por uma estúpida briguinha da ‘‘pura MPB autêntica’’ contra ‘‘cabeludos guitarristas’’. Deu no que deu. Sérgio Ricardo já havia lascado um violão na cabeça da audiência por não poder cantar seu ‘‘Beto Bom de Bola’’ em 1967. Gal já havia sido xingada de ‘‘piolhenta’’, fruto do racismo antinordestino e anticapilar dos meninos depilados da Rua Augusta. E uma prova de que a vaia pode ser consagradora dependendo da platéia idiota que a desfira. A história confirmou.
Mas a vaia comeu solta dessa vez entre Moet Chandons antiparaguaios ou Spumante Prosecco na inauguração do Credicard Hall em São Paulo. João Gilberto pagou o pato. O motivo era a qualidade do som. O Mr. Eco no País do Mr. ‘‘M’’. Caetano, sempre no meio da história, soltou seu desabafo vip na defesa do mestre, indiscutível.
Aparentemente, o fato residiu na eterna insatisfação de um monge, João, que trata a música em um estágio sobrenatural de precisa emissão entre voz e ritmo e seu eterno conflito com a tecnologia dos sons padronizados e espaços feitos mais para caixa de ressonância do tilintar dos Rolex quando aplaudem. O formal das salas de espetáculos prevalece sobre o artesanato simples da voz, por exemplo. Mania de perfeição diria quem pouco preza o fator humano.
João pode receber seu cachê de US$ 70 mil mas ele sempre desejará cantar o máximo para o melhor. Isso ele nunca negociou. Seja na Disneyworld chique da elite paulistana, uma espécie de Canecão-Cancun, ou num banquinho e violão no antigo sítio dos Novos Baianos na maior loucura criativa dos doces bárbaros.
O episódio é de uma riqueza abrangente. Mostra como as platéias se distinguiram mas a vaia continua. Mostra que a Casa Grande agora é a única que pode pagar para ver os shows antes guerrilheiros-manequins da Senzala. Mostra como a mídia impressa está perigosamente refém da televisão, pois foi muito pouco o que se aprofundou sobre o fato além do que a TV deu. Isso preocupa, pois é no texto e na imagem impressa que se daria ao leitor um passo além do visto, e bem, na TV. Mostra que precisamos ainda de bons e autênticos polemizadores para sair desse tédio insuportável de consumo e subserviência a marketismos, gravadoras, ídolos e corporações pseudoculturais.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília

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