Viva a música
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de fevereiro de 1997
José Roberto Whitaker Penteado 
A música em meu coração ficou, muito tempo depois que silenciou - W. Wordswarth.
Um aspecto simpático da personalidade do ministro Mario Henrique Simonsen era o seu amor pela música clássica. Seus artigos em Veja revelavam que o tema estava perto de seu coração, enquanto os textos críticos sobre economia, da Exame, vinham direto do cérebro.
A filha de um amigo, uma vez, mesmo sem o conhecer escreveu-lhe uma carta, pedindo que a orientasse na sua iniciação à ópera. Simonsen encontrou tempo para uma longa resposta, em que resenhava as óperas mais fáceis que a moça deveria procurar ouvir, no seu caminho em direção às mais difíceis.
Nessa predilação, Simonsen afastava-se do centro da corrente cultural que, em nosso país, privilegia uma suposta música popular, esquecida de que, nos países em que viveram os grandes compositores clássicos, essa fronteira não existe e - contrariamente ao que mostra a TV, nos concertos de segunda-feira - não é obrigatório vestir smoking para ouvir Mozart.
Devo a meu tio, Eros de Cunto, uma iniciação musical aos 15 anos, quando comprei meu primeiro LP do que se chamava na época de hi-fi - alta fidelidade. Eram os Quadros de uma Exposição, do compositor russo Mussorgsky, orquestrados pelo francês Maurice Ravel, numa gravação de Arturo Toscanini, diante de uma enigmática orquestra RCA. Tanto ouvimos os Quadros, que éramos capazes de reger a obra, junto com o mestre italiano. Depois, foi o Concerto Imperador, de Beethoven, na gravação - para mim impecável - do inglês Clifford Curzon, diante da Sinfônica de Londres sob a direção do alemão Hans Knapersbusch. Muitos anos mais tarde, tive o privilégio de ouvir um Curzon já velhinho, numa de suas últimas aparições, tocar o Imperador na Salle Pleyel, em Paris, com a orquestra local e Daniel Barenboim.
Os amantes da música têm esse hábito, às vezes antipático aos não-adeptos, de citar nomes de obras e de músicos. Mas é que a música é um tipo particular de maçonaria, que aproxima as pessoas de raizes distantes, mais do que o Rotary Club. Afinal, no parágrafo acima, juntei no mesmo fôlego um russo, um francês, um italiano, um inglês, um alemão, um argentino e os dois brasileiros que éramos o meu tio Eros e eu. Aliás, a outra peça que o fascinava, nesse tempo já distante, era a sinfonia do Novo Mundo composta nos Estados Unidos por um tcheco, Antonin Dvorak.
Assim - muuniciado de Mussorgsky, Beethoven e Dvorak - pude empreender o meu próprio caminho, que se beneficiou de alguns anos longe do Brasil, em Nova York e na Europa. Na corte do já saudoso Paulo Francis, descobrí que se podia ir assistir Beethoven - como eu ia, garoto, ao Maracanã - no Lewinsohn, um velho estádio aposentado de baseball. Éramos milhares de pessoas, a maioria muito jovens, indo todos os dias para ouvir, por apenas um dólar, sentados na grama, a audição integral dos concertos e das sinfonias do grande compositor alemão, regidas por Josef Krips. Foi também em Nova York que descobrí Villa-Lobos, nas prateleiras da loja Sam Goodoy.
Mozart foi-me apresentado por Strohmeyer, um colega de banco, na Suiça, que tinha gravações de todos os seus concertos para piano, quando isso ainda parecia excentricidade de colecionador. A revelação causou-me grande impacto e fui à biblioteca em busca de informação sobre a pessoa que tinha criado aquele extraordinário universo paralelo. Lí de uma vez, como se fosse um romance de mistério, a clássica e apaixonada biografia de Wyzewa e Saint-Foix em cinco volumes que, anos mais tarde, encontrei num sebo, em Paris. Quando assisti Amadeus, a peça de Peter Schaffer, na Broadway, era como se revisse a história de um amigo de infância.
São lembranças provocadas pela partida de Mário Henrique Simonsen, irmão na música. E - em tempo - o título deste artigo é o da excelente revista de Heloisa Fischer - que dirigiu a pranteada rádio Opus 90 - e assume, agora, a direção da MEC-FM. Boa sorte, Heloisa!


