Tão importante quanto o acordo obtido pelo Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, em Bagdá, abrindo caminho para o fim da crise que voltava a se desencadear na região, foi o fato de o principal dirigente da organização mundial, verdadeiro Parlamento das Nações, ter sido o responsável pelo entendimento.
Desde meados dos anos 50, quando o Secretário-Geral da ONU exercia seu cargo à margem da ‘guerra fria’, envolvendo-se com problemas regionais - principalmente os ligados ao fim do colonialismo na África -, as mais importantes decisões sobre as crises mundiais eram tomadas pelas grandes potências. Estados Unidos e União Soviética dividiram o mundo entre si e faziam praticamente o que queriam, transformando a ONU numa espécie de assistente privilegiado.
O acordo para o fim da guerra no Vietnã, por exemplo, e o entendimento inicial que colocou palestinos e israelenses na mesa de negociações são dois casos, entre muitos outros, dos quais a ONU participou muito pouco. Mesmo na primeira crise com o Iraque, em 1991, quando o ataque das forças aliadas foi autorizado pela ONU, a ação foi praticamente imposta pelos ‘grandes’. O fim da União Soviética não serviu para mudar isto, apenas deu aos Estados Unidos um ‘status’ ainda maior no mundo.
Todavia, o papel da ONU é o de propiciar a paz no mundo através da negociação e para isto ela foi criada, quando a II Guerra Mundial estava chegando ao fim. Seus órgãos auxiliares, entre os quais o Unicef, a FAO, a Unesco, além dos que cuidam da situação dos refugiados no mundo, também desempenham papéis da maior relevância. Mas o mais importante de todos é o da preservação da paz e da negociação pacífica das diferenças entre seus membros.
A atuação do Secretário-Geral nesta crise recoloca a ONU no lugar que a humanidade deseja. Se Saddam Hussein é um provocador sanguinário e irresponsável - e ninguém duvida disto, nem mesmo no mundo árabe -, é certo também que a guerra não deve ser a resposta dos demais países. Isto pela simples razão de que o povo iraquiano - que é quem mais sofre com a guerra - não representa nenhuma ameaça para o mundo. A ameaça vem somente de Saddam e seu grupo e bombardear o povo por isso, além de estúpido é contraproducente, pois não vai sensibilizá-los de modo algum.
O desfecho da crise atual pode ser o início de uma virada na condução dos assuntos mundiais. Por linhas tortas, Saddam fez sua parte ao insistir que a ONU deveria estar à frente das negociações. Felizmente, não foi louco o bastante para bater de frente com os EUA. Ameaçado, resolveu negociar e acabou trazendo o principal dirigente da ONU para o centro da crise. Ao torná-lo uma espécie de fiador do novo processo de entendimento entre as nações e o Iraque, Saddam sai da crise vitorioso.
Mas a grande vitória é da ONU. As Nações Unidas são e devem continuar sendo, sempre, o plenário em que as disputas entre os povos são debatidas e resolvidas. O Iraque, ao insistir na presença de Kofi Annan, reconhece o primado do organismo. Os EUA, se acatarem o acordo, também estarão reconhecendo a mesma coisa. A vitória será da paz.
Confirmado o acordo, não só a ONU sai engrandecida, mas o mundo todo renova suas esperanças de paz, união e prosperidade. Um sonho que às vezes parece estar se perdendo, mas está no coração de todos, mesmo quando a guerra parece ser a única saída.

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