Vítimas do preconceito
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de agosto de 1998
Arlete Salvador 
O episódio da prisão e confissão do maníaco do Parque, identificado como o motoboy Francisco de Assis Pereira, dá a exata dimensão do preconceito com que são tratados os crimes contra mulheres. A descrição das atrocidades confessadas pelo motoboy, por si só, é deprimente e reforça o sentimento de insegurança que toma conta das grandes cidades. Os subprodutos de tais crimes, entretanto, são mais dolorosos ainda para as mulheres, porque fica claro que elas precisam enfrentar não apenas os psicopatas, mas também o machismo da polícia e da lei e a incompreensão da sociedade.
Os crimes de Francisco deram origem a duas vertentes de discussão. A primeira, e mais óbvia, é o preconceito evidente contido na pergunta mais ouvida nos bastidores do caso: como aquelas moças acompanharam um desconhecido a um parque da cidade? A pergunta, aliás, é uma reprodução educada de tudo o que se diz, pelas costas, sobre o comportamento das meninas. Chegou-se a comentar que, se o tal Francisco não tivesse moto, certamente as mocinhas não iriam com ele.
Na sequência da pergunta inicial, veio outra, tão venal quanto: até que ponto as jovens estão dispostas a ir para alcançar o sonho de ser modelo e famosa? Desfilam-se aí as já batidas alegações de que modelo em início de carreira submete-se ao velho teste do sofá para subir na vida. E olhe que isso também é a acusação mais amena que se faz às mocinhas que sonham em ser uma Naomi Campbell no futuro.
São discussões de revirar o estômago, já devidamente revirado pelos detalhes sórdidos da confissão do maníaco. Aquelas moças tinham o direito de acompanhar quem quisessem ao lugar que quisessem a qualquer hora. É um princípio básico garantido pela Constituição. Quem violou a lei foi o tal maníaco, que as matou. Matar é crime; acompanhar um desconhecido, não.
Talvez o bom senso não recomendasse que acompanhassem um desconhecido, mas elas não são as únicas a carecer dessa qualidade. O que dizer do motorista que dirige em alta velocidade e morre ao bater o carro num muro? Não lhe faltou bom senso na hora de pisar no acelerador? O que dizer de pessoas que tomam por conta própria remédios de venda proibida sem receita médica? Onde está o bom senso no caso? Convenhamos, senhores, só se cobra das moças um bom senso de sacerdote porque o caso tem componentes sexuais e se trata de mulheres.
Também não cabe julgar a ambição das garotas. É legal e lícito que queiram melhorar na vida, ser famosas e admiradas. A algumas jovens, especialmente as de classes mais populares, não é dada outra expectativa de futuro além do sonho de ser modelo. Sem escola pública, sem emprego, é natural que aspirem a uma profissão onde possam competir com as jovens que estudaram em colégios particulares. Ser modelo, aparentemente, é a carreira mais fácil para quem não tem outra chance na vida. É o que fazem os meninos que sonham em ser jogadores de futebol. Se não jogasse tão bem, o que faria Ronaldinho hoje?
Enquanto as meninas pobres sonham em ser modelos, os meninos pobres sonham em ser jogadores de futebol. Que mal há nisso?
Finalmente, chegamos ao teste do sofá. Elas chegariam tão longe? É hora de inverter a pergunta, para colocá-la no seu sentido correto: quem são os canalhas que aliciam, corrompem e seduzem jovens modelos?
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília


