Leandro Rodrigues Alves, 23 anos, é uma das seis mil vítimas anuais do trânsito brasileiro. Segundo pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, divulgada essa semana, as maiores vítimas são homens entre 20 e 39 anos e, na maioria dos casos, as sequelas são graves. Entre os adolescentes, os acidentes de trânsito são a segunda causa de morte, a primeira é o homicídio. Os custos para o país também são altos, no ano passado foram 123.061 internações pelo SUS ao custo de R$ 118 milhões - cerca de 35 mil internações foram por acidentes com moto. Leandro teve parte de perna direita amputada após se envolver em um acidente em agosto do ano passado. O rapaz descia de moto, após sair do trabalho, na Rua Pernambuco, quando, na esquina com a Avenida J.K., um Mercedes cruzou o sinal vermelho e o atropelou. Já se foram oito meses e ainda não houve nenhuma audiência, o inquérito levou 20 dias para ser instaurado. Além da demora no julgamento, a probabilidade de punição mais severa é remota, a maioria das condenações de crime de trânsito se resume à doação de cestas básicas e prestação de serviços à comunidade. As vítimas é que precisam aprender a viver com as sequelas. Há uma semana Leandro colocou a prótese definitiva, está reaprendendo a andar e começando uma nova vida. O custo foi de R$ 9,5 mil - R$ 5 mil foram doações de empresas, o restante, Rosângela Rodrigues, mãe de Leandro, emprestou em um banco. A família do atropelador nunca os procurou para oferecer auxílio.


Quais as principais dificuldades que enfrentou depois do acidente?

Superar o preconceito. Quando saía de muleta, com um membro faltando, ficava todo mundo olhando. Queira ou não, você é diferente de alguma forma. Entrava em pânico no meio das pessoas. Houve dias em que deitava na cama, olhava e pensava: ''O que vai ser de mim agora? Como as pessoas vão me encarar daqui para frente?'' Ficava pensando o que seria da minha vida dali por diante. A questão de ficar sem trabalhar também é difícil, estou encostado pelo INSS, recebendo metade do salário que recebia.


E depois da prótese como está?

Agora estou melhor, mais calmo um pouco, me acostumando. Você tem que se conformar porque não tem como voltar atrás. Tem que ter força de vontade para superar. Você está vivo, e tem que procurar viver sua vida da melhor maneira possível. Mas, mesmo com a prótese, a sequela é para sempre. Quando eu for tomar um banho ou dormir, tenho que tirar. Tenho que aprender a me olhar de outra maneira.


E o processo?

O advogado diz que está em andamento. Ele acredita que neste ano sai alguma audiência. Até hoje não recebemos nenhum real da família do rapaz que me atropelou, nem nos procuraram para nada. Apesar de não ter dinheiro que possa amenizar essa história, poderiam pelos menos ligar para saber como eu estava, dar uma força, prestar solidaridade. Eles foram à imprensa dizer que ajudariam na colocação da prótese, mas todas as vezes que ligamos, diziam que não havia ninguém da família, acabamos desistindo.


Acredita que as punições para os envolvidos em acidentes de trânsito são leves?

São sim. Na verdade não há punições, não se vai preso, fica respondendo um tempão, demora anos para se resolver, paga cesta básica e pronto. Enquanto quem foi ferido tem que aprender a viver com as sequelas para o resto da vida.


Qual a sua expectativa para o futuro?

Trabalhar agora vai ver ser complicado, tenho que encontrar uma nova função. Não sei como vai ficar. Acredito que em julho volte a trabalhar, aí é que vou saber que função vou desempenhar no hotel. Vou ter que me qualificar para fazer outro tipo de trabalho. No mês que vem devo começar a fazer alguns cursos. Meus patrões me apoiaram bastante e estão dispostos a ajudar. Estive lá esta semana e me disseram que tem uma boa função me esperando. O importante é que estou vivo, e vou procurar viver minha vida da melhor maneira possível.

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