VISIBILIDADE E PRECONCEITO - Rolezinho põe convivência democrática em xeque
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domingo, 19 de janeiro de 2014
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
O fenômeno não é novo, mas o rolezinho é o assunto do momento. As atividades de jovens organizadas pelas redes sociais em shoppings de São Paulo foi parar no topo do ranking dos temas mais comentados depois que um deles, no dia 11 de janeiro, acabou em confusão no Shopping Metrô Itaquera, na capital paulista. Na ocasião, a Polícia Militar (PM) usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar cerca de 3 mil jovens. Apesar de vários lojistas terem fechado as portas por questão de segurança, não houve registros de furtos. Depois disso, seis shoppings centers em São Paulo conseguiram liminares na Justiça para impedir que jovens em grupo entrem nos centros de compras, imputando uma multa de R$ 10 mil a quem participasse.
O fato é que uma verdadeira avalanche de opiniões surgiu apoiando ou criticando o movimento, e colocando em xeque a legalidade de tal impedimento obtido nos tribunais. Ao mesmo tempo, o debate passou a tratar também da capacidade de convivência democrática da sociedade.
Segundo o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os rolezinhos não são organizados como bandeira política, mas representam um comportamento comum dos jovens, que buscam reconhecimento e visibilidade.
Pereira dedica-se a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas, como o mundo da pichação e o termo "zoar". Desde 2012, estuda o funk ostentação, estilo de música surgido na Baixada Santista e Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos, que evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso traz.
Qual o significado do termo rolezinho e a mensagem que traz consigo?
O termo rolezinho significa nada mais do que fazer um passeio, circular para se divertir e usufruir da cidade. Esses jovens (que participam dos rolezinhos) querem principalmente se divertir, encontrar amigos, paquerar e, como eles mesmo dizem, zoar, o que significa chamar a atenção para si, ter certa visibilidade e reconhecimento entre os pares.
Como definir e entender esse movimento no contexto atual?
Esse movimento está bastante ligado à centralidade do consumo na nossa sociedade. De certa forma, ao ocupar tais espaços em grupo para se divertir, esses jovens estão dizendo que querem fazer parte desse mundo do consumo.
Qual papel o funk ostentação tem nesse fenômeno?
O funk ostentação é justamente uma vertente do funk que surge com letras sobre o consumo de marcas, carros e bebidas caras. O funk ostentação é a trilha sonora dos rolezinhos.
O encontro de grandes grupos jovens não é exatamente um fenômeno novo. Por que o rolezinho tomou essa proporção, sendo alvo de críticas de uma parte da sociedade?
Exatamente, grupos de jovens sempre tiveram os shoppings como pontos de encontro. O rolezinho tomou essa proporção por uma série de motivos. Dentre eles, o fato de serem jovens pobres, negros ou pardos em sua maioria. E, ainda por cima, terem um gosto musical que é bastante marginalizado e criminalizado, que é o funk. Acrescento ainda o papel que a repressão teve em potencializar o evento e o da mídia, ao rotular e estigmatizar tal evento como arrastão, para a proporção que ele tomou.
Qual o motivo do incômodo que esses jovens causam ao frequentarem locais restritos até então às classes média e alta?
Na verdade, o principal incômodo é que se trata de um grupo marginalizado em nossa sociedade. E, no caso específico do rolezinho, que não se contenta em ficar quietinho no shopping e se comportar como um consumidor disciplinado, mas que vai para zoar, brincar, bagunçar e se divertir com amigos. Porém, se pararmos para observar os shoppings onde foram marcados os rolezinhos, percebemos que esses estão já em áreas periféricas, estão próximos às casas desses jovens. O que evidencia ainda mais o desejo que eles têm de ocuparem o shopping como um espaço de encontro entre iguais.
Por que os participantes do rolezinho são relacionados à imagem de vândalos, desocupados, desordeiros e criminosos?
Primeiro, por serem jovens, segundo, por serem pobres e gostarem de funk. Vivemos hoje uma grande dificuldade na relação com os jovens. Basta olhar para a crise que se enfrenta na educação, principalmente na relação entre aluno e professor.
Seis shoppings em São Paulo conseguiram liminares para que esses grupos não entrem nos centros de compras. O que caracteriza essa postura, já que, a princípio, os participantes não estão cometendo crime?
Essa postura parece demonstrar o medo que se criou desses novos agentes sociais, que estavam até então escondidos, mas que começam a reivindicar, ainda que indiretamente, certo protagonismo na vida social. E, é claro, demonstram também preconceito de classe, raça, idade e geração.
Seria correto dizer que eles reivindicam, acima de tudo, acesso ao lazer e consumo, em detrimento de outras necessidades como saúde e educação?
Na verdade, não há uma reivindicação organizada, exigindo mais espaços de lazer e consumo, mas uma ocupação que indiretamente demonstra esse desejo. Os rolezinhos não fazem política no sentido tradicional com o qual estamos acostumados.
Essa reivindicação representa o desejo de jovens de outras classes sociais?
Acho que essa é uma reivindicação que diz respeito a todos nós, jovens ou não jovens, ricos ou pobres, que é a reivindicação por espaços públicos de qualidade em nossas cidades. Precisamos de mais espaços que garantam o convívio entre os diferentes. Porém, o que se vê é crescer cada vez mais o número de espaços segregados, que são pautados pelo medo do diferente e pelos sentimentos de preconceito e discriminação.


