Visão de mundo africana
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de maio de 2003
Vilma Santos de Oliveira 
Neste 13 de maio, data alusiva à Libertação dos Escravos no Brasil, quero refletir sobre um assunto pouco debatido na sociedade brasileira. Não é novidade para ninguém as dificuldades e limitações que o brasileiro, em particular os afrodescendentes, têm para discutir a Cosmovisão Africana ou Cosmovisão dos Orixás. Cada vez que o assunto é colocado na roda inevitavelmente conduzimos o tema para religiosidade, e falar de religião africana no Brasil sem dúvida alguma é falar do Candomblé. Ainda que seja natural navegarmos rumo a nossos Deuses (com certeza em letra maiúscula), queremos aqui abordar a essência da Cosmovisão Africana, sua filosofia, seus princípios e fundamentos em relação à vida humana e, a partir daí, fazer um paralelo com a Cosmovisão dominante hoje.
Como cultura milenar, a visão do universo africano sofreu preconceitos de toda ordem e sobreviveu ao aculturamento de outros povos. Na história da humanidade nenhuma cultura resistiu a tanta adversidade, passando da escravidão do povo negro à discriminação racial dos nossos dias. Em seu seio está o ''código do DNA cultural'' que deu origem ao florescimento sem precedentes de habilidades humanas na transmissão oral do conhecimento. De geração à geração a visão de mundo africana tem significado a grande herança genética e verdadeiro elo de conexão com nossa ancestralidade.
Na Cosmovisão Africana a beleza da Terra inspira a consciência, a imaginação e a celebração humana. Seus fundamentos têm como base a interação do ser humano com a natureza. Todas as formas de vida são sagradas. A terra é uma comunidade, uma comunhão de seres. Nós, seres humanos, devemos reconhecer e respeitar essa sacralidade. A vida é uma dádiva, concedida igualmente a todos nós. Ela deve ser tratada com respeito e com a devida consideração pelos outros, incluindo as gerações futuras. A vida humana é parte do mistério da evolução que se toma consciente de si mesma, e inclinamo-nos em sinal de humildade diante desse grande mistério. A mulher, fonte geradora de vida, tem papel especial nesse universo.
O Axé é a energia vital da vida, força dinâmica e poder infinito nas relações humanas. A comunidade Terra é um sistema complexo e interdependente de forças da Natureza, e só pode sobreviver com um funcionamento integral e interconectado através do Axé. O bem e o mal ou a energia positiva e negativa são partes separadas de uma mesma realidade que pode ser harmonizada. Por fim, na diversidade todas as partes do sistema são essenciais para seu funcionamento e beleza, formando o Universo como um todo único.
Assim, a partir da Cosmovisão Africana, o povo brasileiro, em especial o movimento negro, dará uma nova abordagem ao universo em que nós negros e negras estamos inseridos, estabelecerá um novo olhar à realidade, criando nova linguagem que respeite as diferenças, gerando melhores instrumentos de avaliação política, promovendo mudanças básicas de valores e comportamentos, criando percepções inéditas das realidades planetária e, sobretudo, provocando uma mudança de paradigma, pois a realidade produzida em massa pela elite dominante não pope dar conta das variadas maneiras de sentir, pensar e agir da nossa gente.
VILMA SANTOS DE OLIVEIRA, conhecida como Yá Mukumbi, é presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina


