VÍRUS MORTAIS - Nada substitui a prevenção
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sábado, 21 de julho de 2012
Davi Baldussi <br>Reportagem Local 
O anúncio da liberação, por parte do governo dos EUA, de um medicamento para prevenção da aids gerou expectativa na comunidade científica e entre os soropositivos. A euforia, no entanto, é excessiva. Pelo menos essa é a opinião do vice-presidente da Sociedade Paranaense de Infectologia, Jan Walter Stegmann. Para ele, a eficácia da pílula não é garantida e os métodos tradicionais de prevenção ainda são os mais recomendados.
Um problema apontado pelo especialista é que o vírus HIV pode ficar mais resistente. ''O remédio pode não funcionar e ainda dificultar o tratamento. Não é aquela maravilha. É um medicamento que já existe há muitos anos e é usado. Nada substitui as medidas básicas: relação monogâmica e uso de preservativos'', aponta.
O infectologista alerta ainda que a prevenção ainda é a melhor forma de evitar epidemias de doenças graves também provocadas por vírus, como a gripe A e a dengue. ''Na minha opinião, todas as vacinas deveriam ser universais. O Ministério da Saude tem que ver a saúde como um todo, ver a saúde de toda a população'', reivindica.
Como o senhor avalia o anúncio feito nesta semana pelo governo dos EUA liberando uso de medicamento como forma de prevenção à aids?
O medicamento que estão lançando, Truvada, é uma associação de dois medicamentos que já existem para tratar a aids. Um é o Tenofovir, que já existe há vários anos, e o outro é a Entricitabina. O laboratório dono da patente de ambos coformulou os dois e essa coformulação é a base do coquetel (utilizado no tratamento). Os estudos foram feitos na África, com patrocínio da indústria farmacêutica.
A aids não tem cura, mas é uma doença que hoje se pode controlar. É possível manter a pessoa viva, mas tem que tomar o remédio. Já que não tem cura, qual é o esforço hoje? Prevenir. Há várias estratégias neste sentido. Já houve estudos com postectomia, cirurgia de fimose, na África, que mostrou alguns resultados. Dentre eles o uso de medicamento antes da pessoa se contaminar (profilaxia). É o que se faz em medicina, por exemplo, na cirurgia. Toda pessoa que vai passar por uma cirurgia, para prevenir a infecção hospitalar, usa antibiótico antes do procedimento. Só que usa em 24 ou 48 horas no máximo antes da cirurgia.
Aqui é diferente, há dois anos atrás em Viena foi publicado um estudo chamado Caprisa 004. Testaram o Tenofovir em gel em mulheres africanas e isso mostrou um efeito favorável, houve até uma euforia. Só que depois, com esse mesmo Tenofovir em gel, foi feito outro estudo chamado Voice, que não mostrou nenhuma eficácia. Então continuaram usando esse medicamento em outros estudos.
Só como exemplo: dois estudos com heterossexuais, com mais de 7 mil pessoas, desmonstraram eficácia de 62% e 75%. Só que essas pessoas que usaram remédio tinham que ter também a prática de sexo seguro, usar preservativo. Não é só o remédio. Já o estudo com homossexuais mostrou eficácia de 42%, ou seja, muita gente que usou o remédio pegou aids. Teve um estudo com 2.120 mulheres que não mostrou nenhum benefício e foi suspenso antes.
Então esse anúncio tem que ser recebido com reservas?
Tem vários problemas. O primeiro, quem usa remédio tem que fazer o exame antes, porque uma pessoa que já tenha HIV não pode usá-lo. E tomando o remédio você teria que fazer o exame em três em três meses, para ver se não houve falha. Segundo: qual paciente deve usar? Pensaram em pessoas de alto risco, talvez profissionais do sexo, mas as pessoas têm que usar preservativo. Outra dúvida: quando começar a profilaxia (prevenção) e quando parar? A pessoa vai usar pelo resto da vida? Os pacientes têm que ser acompanhados.
Também tem o problema dos custos. E o vírus pode ficar resistente. Se a pessoa tomar esse medicamento e se contaminar com aids, esse vírus pode criar resistência ao remédio e essa pessoa pode passar o vírus resistente para outra pessoa. O remédio pode não funcionar e ainda dificultar o tratamento. É uma droga segura, porém, tem efeitos colaterais. Tem efeitos gástricos. E tem potencial para, no longo prazo, causar alterações no rim e nos ossos.
Então não é aquela maravilha. É um medicamento que já existe há muitos anos. Portanto, nada substitui as medidas básicas: relação monogâmica e uso de preservativo.
Esse anúncio não muda nada então?
Eu acho que não. O estudo Caprisa já foi publicado dois anos atrás. E essa não é uma opinião só minha. Editoriais de revistas médicas, inclusive do New England Journal, onde foram publicados os estudos, mostram isso. Será que as pessoas que usam o remédio vão deixar de usar camisinha?
Pode até piorar?
Pode piorar. A pessoa usa o remédio, para de usar camisinha e já se contamina com o vírus resistente. Além de dificultar o próprio tratamento, pode passar o vírus resistente para outra pessoa.
Mudando de assunto, para algo mais perto do dia a dia do paranaense: gripe A. No ano passado duas pessoas morreram por conta causa da doença, neste ano o número de mortes já passa de 20, além de centenas de casos confirmados. Por que o Paraná está nessa situação?
Acho que é uma adaptação do vírus. Os vírus mudam. No início da epidemia, casos de óbito no Rio Grande do Sul foram de pessoas não vacinadas. Não temos dados sobre esses casos de agora (no Paraná), se as pessoas foram vacinadas ou não. Mas os vírus mudam, quando se divide ele replica o DNA e às vezes ''erra''. Então um vírus ''errado'' pode continuar e manter a epidemia. Nosso sistema imunológico está acostumado a pegar aquela sequência e um vírus diferente, que muda sequência dos genes, nosso sistema imunológico não reconhece.
A vacinação deveria ser universal?
Na minha opinião, todas as vacinas deveriam ser universais. O Ministério da Saude tem que ver a saúde como um todo, ver a saúde de toda a população. A gente sabe que os recursos são limitados, há uma preferência para grupos mais suscetíveis. Tem que lembrar também que a disponibilidade da vacina não é tão grande. Está faltando vacina, mesmo imunizando só os grupos mais suscetíveis. Está faltando vacina até em clínicas particulares.
O custo de prevenir não é menor do que o investimento necessários para tratar os pacientes?
É imprevisível, mas normalmente os grupos que procuram hospitais são os extremos de idade que estão cobertos pela vacina. Mas em todas as situações já está bem claro que o custo da prevenção é muito menor do que o custo do tratamento. Então prevenir sempre sai mais barato.
Qula é a melhor época para ser vacinado?
O nível de proteção da vacina é maior logo após ser vacinado, por isso a vacina deve ser aplicada pouco antes do inverno. Para o nível de anticorpos ser maior no inverno, pois depois a tendência é decrescer a proteção. Em torno de duas a três semanas após a vacina, inicia a proteção efetiva.
Em tempos em que medicamentos podem começar a ser utilizados para prevenir a aids, o País ainda convive com doenças como a dengue, que pode ser erradicada com medidas simples, como evitar a água parada. A dengue já não deveria estar erradicada?
Existe um alento: já tem uma vacina em testes, se não me engano, no Espírito Santo, que parece ser altamente efetiva e nos próximos anos vai estar aí. Dengue é uma doença dos trópicos e de países pobres, que não tomam cuidado. É importante lembrar que o mosquito já foi erradicado lá atrás, se não me engano na década de 1960. Na época da febre amarela. É possível, mas depende de uma educação pessoal, da população. Aí não tem muita coisa a ver com governo. São as pessoas que deixam a água se transformar em criadouro. Não depende só do sistema, depende de toda a população empenhada e isso vai ser muito difícil no nosso país. Então acho que a esperança é a vacina.


