Vírus anti-EUA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de outubro de 2001
Wander Roberto Steca 
Paulo Sá escreveu, no dia 11, na Folha, a respeito do sentimento antiamericano que grassa no mundo. Ele acusa comunistas e árabes por esse sentimento, mas apresenta fatos que necessitam de análise mais demorada. Aceito que ele seja um americanófilo e que goste do modo de vida americano. Não há nada de mais nisso. Mas algumas posições merecem reflexão mais cuidadosa.
Sá formula obviedades sobre o PIB americano, seu exército, suas universidades, suas láureas do Nobel, sua potência olímpica, sobre qualquer conjunto de nações árabes ou muçulmanas. Mas quem então poderia ser superior? Depois, comenta sobre Thomas Paine, sendo correto na afirmação, mas incompleto. Realmente Paine fala da predestinação americana pelo zelo e destino da humanidade, mas observa que isso poderia vir a ser a ruína americana, pois o país poderia ser atingido por uma onda de ressentimentos, motivado por essa mesma conduta.
Seguem palavras de Paulo Sá: ''Os americanos atravessaram o Atlântico e o Pacífico para vencer a Europa dominada pelos nazistas e a Ásia escravizada pelos nipônicos. Perderam milhões de soldados e bilhões de dólares''. Parece correto, mas é posição equivocada, quase apaixonada. A Europa e a Ásia devem mais aos soviéticos do que aos americanos dentro do período da Segunda Guerra. A Alemanha declarou guerra aos soviéticos em 1941. Os americanos, britânicos e canadenses, os aliados ocidentais, só entraram no continente europeu em fins de 1944. Não tinham forças para penetrar no continente. Ficaram ciscando à sua volta, enquanto a guerra seguia entre russos e alemães.
O poder dos aliados resumia-se a bombardeios aéreos das cidades alemãs. O exército americano pouco lutou com o exército profissional alemão. Na Europa Ocidental, o exército alemão era de ocupação, pessoal recrutado para exercer o poder alemão na zona dominada, profissionais liberais e jovens em sua maioria.
Após o desembarque na Normandia, os aliados enfrentaram o verdadeiro exército alemão na Batalha das Ardênias, quando Hitler desviou três das 25 divisões do Leste. Foi como faca no queijo, não o rolo compressor que era o avanço do Exército Vermelho. Foi preciso pedir que Stalin atacasse a retaguarda alemã para cortar os suprimentos militares, e assim dar prosseguimento ao avanço aliado. Ainda assim o comando aliado solicitou aos alemães para que segurassem os soviéticos dando tempo para o exército americano chegar antes deles a Berlim; 380 mil russos morreram nos últimos três dias de guerra na Alemanha; 20 milhões de soviéticos morreram; 10 milhões eram soldados.
A Ásia também foi libertada pelos soviéticos, que enviaram à Manchúria, logo após a rendição alemã, cinco divisões de seu exército, a menor delas com 350 mil homens. Os americanos preferiram enviar ao Japão apenas duas bombas, após dominar as ilhas do Pacífico.
Morreram 500 mil americanos na guerra, não milhões, e eles não gastaram bilhões de dólares: ganharam bilhões com a guerra. Sá afirma que os americanos prenderam Noriega porque este distribuía cocaína na América: os EUA sempre souberam disso. Tanto que Noriega estava na folha de pagamento da CIA. Noriega caiu porque não conseguiu conter a burguesia panamenha que queria a posse do Canal do Panamá.
O artigo diz ainda que os EUA nos ''deram'' a Siderúrgica de Volta Redonda. Não foi bem assim. A siderúrgica foi uma exigência de Getúlio Vargas para permitir a instalação de bases americanas no Nordeste. Diz que os EUA nos ''deram'' as bases de Fortaleza e Recife, mas a menos que elas coubessem num navio, eu diria que elas ficaram no Brasil.
Paulo afirma que não se sabe a razão do ódio que o mundo nutre pelos americanos. Então pontuo: 25 anos de ditadura na América Latina, mantida pela doutrina americana. De nove conflitos que hoje ocorrem na África, os EUA estão presentes em oito, e destes oito, vendem armas para os dois lados em todos eles, de um lado oficialmente, de outro através de draw back. Os EUA estimularam e deram força à ditadura de Sadam Hussein, armaram os iraquianos e estimularam a guerra aos iranianos. Não contentes, tentaram armar os iranianos através de um draw back com a Nicarágua, no escândalo Irã-Contras.
Os EUA perderam a guerra do Vietnã e estimularam em seguida os adversários de Ho Chi Mim, o Kmer Vermelho, mais precisamente Pol Pot, sanguinário ditador que matou mais de 1 milhão de cambojanos. Após a derrota de Pol Pot para o Vietnã, os EUA continuaram a apoiá-lo para que assumisse novamente o poder.
Os EUA estimularam a criação do Taleban, através do serviço de inteligência paquistanês. O Paquistão montou a doutrina, a filosofia e o modo de atuação dos talebans e os EUA financiaram essa ação. Após a derrota dos soviéticos, abandonaram o monstro. Durante os últimos cinco anos, a Aliança do Norte, que combate os talebans, foi financiada somente por iranianos e indianos.
Os EUA se recusaram a assinar os seguintes acordos e tratados: de vigilância dos laboratórios, inclusive os seus, de armas químicas e biológicas; de restrição e proibição do uso de minas antipessoais; de proibição do uso de bombas de fragmentação; de proibição do aperfeiçoamento de armas atômicas; o Tratado de Kyoto. E também querem romper o Tratado de Salt 2.
Quanto à contribuição dos muçulmanos para o nosso desenvolvimento, requer a observação de uma alma menos apaixonada pelo Ocidente, que foi incapaz de entender por um longo período uma abstração oriental, o zero. Sá critica ainda os países árabes por defenderem suas riquezas. É típica postura imperialista, centrada sobre o umbigo ocidentalizado. Lastimável pensamento que pede aos países menos desenvolvidos a ética da resignação, a paz da subserviência, conformismo e sofrimento como vias de salvação nacional.
O que ocorreu nos EUA em 11 de setembro foi absolutamente horrível, mas achar que foi uma ação sem causa é impróprio. Não querer ver a causa é maniqueísmo. Não vislumbrar a razão da causa é imperdoável. Para os árabes, Bin Laden usa armas erradas para uma causa justa, e para nós, este é o verdadeiro problema. É crível que Deus criou o mundo, e com a ação americana, a longo prazo, o mundo pode terminar em nome d'Ele.
- WANDER ROBERTO STECA é cirurgião dentista em Londrina


