O estado de violência que vivemos é uma provação para cada um de nós e para a coletividade como um todo, e ocorre para que aprendamos a administrá-lo com maestria. É um delicado momento, que não pode ser tratado apenas com soluções de força, porque se assim for teremos que começar a punir a nós próprios. Roubos, assaltos, homicídios, tráfico de drogas, as guerras, são reflexos do que viceja nas mentes humanas, significando que os agentes diretos do processo da violência e a sociedade são ao mesmo tempo algozes e vítimas. Esse encadeamento envolve a todos, não havendo inocentes entre os bandidos nem no seio da massa social.
O fato de, sobretudo a mídia eletrônica, difundir os delitos humanos como espetáculo, de assistirmos a ele e, assim, irmos absorvendo essas emanações negativas, já constitui uma forma de incentivo à violência, porque robustece essa corrente. Quanto mais se dá importância a um fato sinistro, mais ele tende a se repetir. E em torno dele proliferam as idéias de soluções igualmente violentas, como o castigo pelo sofrimento nas masmorras e até a pena de morte, que nada mais são que anseios latentes de vingança, produtos do ódio.
A ânsia de punição prevalece, ao invés da reflexão que acenderia uma luz nesse ambiente de treva. Esse estado de indignação coletiva talvez seja mais virulento que o que move um marginal a delinquir. Não se espera que as pessoas dêem um beijo na boca de quem as violentou ou tirou a vida de alguém da família, mas é preciso que cada um encare com mais responsabilidade o problema da violência que se está vivendo e que toca a todos.
Se as convulsões têm origem primeiro no corpo social porque é na mente de cada um que começam a plasmar-se as ilicitudes e dali se irradiam até corporificar-se naqueles já propensos a cometê-las e é no âmbito da sociedade onde o problema terá que encontrar solução. É preciso não só querer a paz, mas dar paz e contribuir para a paz. Apenas aumentar e reforçar os organismos de segurança e os presídios não será suficiente para imobilizar todos os marginais, e mais e mais mecanismos de defesa terão de ser instalados.
Se demitimos um trabalhador sem atentar para a cota de contribuição social que cabe a cada um, estamos cooperando para a possibilidade de produzir um marginal, e não apenas ele mas eventualmente seus dependentes. Se pagamos pouco a quem trabalha conosco, tomamos-lhe uma parte, e isso acabará de algum modo sendo subtraído da sociedade, mais cedo ou mais tarde. Se o governo arrocha na tributação e mantém leis inadequadas, está inviabilizando o agente empregador e produzindo mais exclusões sociais e por extensão favorecendo a violência, problemas que depois se verá obrigado a resolver por via de medidas de segurança e assistencialismo.
Nossas individuais atitudes violentas de cada dia, grandes ou pequenas e na maioria nem percebidas, realimentam os conflitos e as misérias humanas, então já sabemos um caminho a evitar.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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