VIOLÊNCIA SEXUAL - Pedófilos também precisam de tratamento
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de abril de 2010
Érika Gonçalves<br> Reportagem Local 
O pedófilo só abusa de criança e adolescente, o abusador não
Enquanto não assumir sua culpa, ele não vai parar
A prisão do pedreiro Adimar de Jesus Silva, que confessou ter violentado e assassinado seis jovens entre 13 e 19 anos em Luiziânia (GO), chocou o País. O primeiro assassinato da série foi cometido uma semana depois que ele deixou a prisão por pedofilia. O grande debate ocorreu porque laudos da Justiça apontavam que Silva não teria condições psicológicas de ficar em liberdade.
Em Curitiba, a polêmica em torno da pedofilia tem um ingrediente a mais: a atuação da associação Fênix, que faz um trabalho considerado polêmico por muitos. O grupo defende que, além de proporcionar apoio para a vítima e para os familiares, os abusadores também devem receber atendimento psicológico. De acordo com a presidente da entidade Sandra Dolores de Paula, o objetivo é prevenir novos ataques.
''O suposto abusador vem com ordem do juiz ou do órgão que está demandando essa família. Ele participa do projeto até ir preso. Você tem que trabalhar a questão da culpa e enquanto a pessoa que cometeu esse crime não for realmente trabalhada, vai continuar cometendo esse ato'', declarou.
No que consiste o tratamento oferecido pela Associação Fênix?
Nosso trabalho é a questão dele (pedófilo) na sociedade. O primeiro acolhimento é colocar para ele a gravidade do seu ato. Ele nunca diz que fez. Demora a admitir isso. ''Foi o demônio'', ''eu estava fora de mim'', aquele que tem mais malandragem, uma cultura mais elevada já vem dizendo que é pedófilo. Mas o outro que não tem isso claro, vem dizendo que foi o demônio, que se arrepende. Mas não se arrepende.
Nós temos alguns casos que ''pegaram'' 20 anos (de prisão) e só depois de dois anos assumiu o crime. O trabalho é fazê-lo entender que o que ele fez foi realmente monstruoso. Ele sabe que vai pagar o preço com a sociedade e com ele mesmo.
Qual é o motivo de vocês optarem pelo tratamento do agressor? Isso não é comum.
Isso não é uma coisa aceita. A sociedade, por questão cultural, não está pronta para isso. Enquanto você não fizer esse abusador ter condição de estar pronto para assumir sua culpa, ele não vai parar. Para ele não há essa noção de errado. Ele precisa ser chamado para a consciência dele, você tem que mexer com a alma da pessoa, com esse desejo.
Mas quando o pedófilo alega que o ato foi coisa do ''demônio'', ele não está reconhecendo a culpa e, por saber que vai ser punido, está tentando se eximir?
Não, a diferença é a questão da pedofilia. Se ele for pedófilo, ele tem uma característica, só abusa de criança ou adolescente. Ele escolhe um perfil, por exemplo, criança de 3 a 5 anos. Ele é sociável, mas não se casa, não constitui família. O abusador simplesmente pode pegar uma criança, um adolescente, um rapaz, uma mulher casada, é outro tipo. Se tem um abusador dentro da família, ele vai fazer a tortura mental, dizendo que se (a vítima) contar mata a mãe, por exemplo. Temos vários casos aqui do abusador ser da família e não ser pedófilo.
Então a pedofilia é uma doença. Ele não é um criminoso como outro qualquer?
É uma doença, é uma questão neurológica. O que a gente tem que tomar cuidado é ver bem o que é pedofilia, tudo agora virou isso. A pedofilia é uma doença que o abusador tem. Mas ele tem um perfil definido, diferente daquele que abusa e mata.
O rapaz de Luziânia não pode ser considerado pedófilo?
Se enquadra também, mas ele tem outros problemas, tem que fazer um estudo. Ele se enquadra pela condição de pedofilia pela solidão em que vive, mas tem a questão do matar, associado a uma psicopatia. Ele mesmo disse que matou por raiva depois que foi preso. O que ele passou na prisão que desencadeou o matar? Antes ele não matava. Ele tem que ser punido e preso, mas também acompanhado em todos os sentidos.
Que tipo de crítica vocês já receberam por defender esse tipo de tratamento?
Todas que você pode imaginar. Nós respondemos que é um ser humano que está na nossa frente, que precisa ser atendido. Nunca escondemos desse abusador o seu crime e nunca passamos a mão na cabeça, mas ele tem direito a um tratamento. Até para não desencadear outras psicopatias e se tornar um abusador em série. Se todos esses homens que aparecem com tantas patologias fossem realmente atendidos, na íntegra, talvez não tivéssemos tantas situações como as que estão aparecendo agora. O nosso trabalho é feito para que isso não aconteça no futuro, para que essa pessoa pare.
Uma das críticas é que não é possível tratar uma pessoa que não se reconheça doente ou com necessidade de tratamento. Como fazer com que a pessoa tenha essa consciência?
Primeiro ela tem que descobrir o quanto agiu errado, que afetou a vida de uma família inteira, que isso não pode continuar. Depois que tiver essa consciência, trabalhamos para que ela compreenda que precisa de ajuda.
O tratamento que vocês oferecem é feito até o abusador entrar na prisão. E depois?
A prisão tem que tomar conta disso. Nós acreditamos que dentro da prisão tem que haver um atendimento tão pontual quanto o que ele recebia antes de ser preso. Se ele continuar com um atendimento, faz diferença.
Vocês não têm a sensação de trabalho incompleto?
Para nós a sensação é ruim. Mas enquanto ele estiver aguardando sua pena, acreditamos que trabalhar para fazer alguma coisa é importante. Quando é dada a pena aí o trabalho acaba, mas continua com a família.
Vocês têm ideia de quantas pessoas já atenderam? E qual o resultado?
São poucos que continuam o atendimento. Vários vêm até nós, mas poucos realmente querem o atendimento. Temos resultados positivos, quando ele descobre que o que fez é monstruoso, o trabalho está encaminhado.
Alguns pedófilos demonstram bom comportamento na cadeia. Isso se deve ao fato de não haver crianças ali? Ou seja, quando sair ele pode começar a atacar de novo?
Eles são manipuladores e sedutores. E também lá não tem o que eles procuram. Na maioria das vezes eles são ótimos, são os melhores vizinhos, os melhores tios. São aqueles em que as pessoas mais confiam. Tem aqueles que aparecem do nada e conquistam a criança.
A castração química já é usada em alguns países. Vocês concordam com o método? Qual a sua avaliação sobre essa alternativa?
Para ter a castração química tem que ter uma seriedade no estudo de caso, o acompanhamento psicológico, a não redução de pena. Ele pode não fazer mais a penetração, mas pode cometer outro tipo de abuso. E ele tem que consentir em tomar esse remédio. Ele não pode parar o atendimento psicológico, tem que ser uma escolha dele, senão não adianta. A libido não diminui, o desejo continua. A mente continua fantasiando. O desejo é além do biológico. São poucos os que têm essa consciência, que entendem essa necessidade.


