Violência que começa antes do crime
IBGE mostrou que uma em cada quatro adolescentes brasileiras já foi vítima de violência sexual
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quinta-feira, 26 de março de 2026
IBGE mostrou que uma em cada quatro adolescentes brasileiras já foi vítima de violência sexual
Folha de Londrina 
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, do IBGE, impõem um choque de realidade difícil de relativizar: uma em cada quatro adolescentes brasileiras já foi vítima de violência sexual. É um retrato estrutural de um problema que se inicia cedo, se repete dentro de círculos de confiança e, muitas vezes, sequer é reconhecido pelas próprias vítimas.
A pesquisa revela que a violência ocorre, majoritariamente, dentro de relações próximas: familiares, parceiros, conhecidos. Isso desmonta a ideia de que o risco está apenas no desconhecido e reforça a dimensão cultural do problema. Mais grave ainda: a maior parte dos casos de relação forçada ocorre com vítimas de até 13 anos, idade abaixo do consentimento legal no Brasil. Ou seja, estamos diante de um cenário em que a lei já define claramente o crime, mas não consegue impedir sua ocorrência.
É nesse ponto que o debate legislativo ganha relevância. A aprovação, pelo Senado, do projeto que criminaliza a misoginia e a equipara ao racismo sinaliza um avanço importante ao reconhecer que a violência contra a mulher não começa no ato extremo, mas em práticas cotidianas de desvalorização, hostilidade e discriminação. A proposta tenta atacar a raiz simbólica do problema: o ambiente que naturaliza o desrespeito.
No entanto, há fragilidades evidentes. A legislação brasileira já é relativamente robusta na tipificação de crimes sexuais, especialmente após avanços como a ampliação do conceito de estupro e a proteção de vulneráveis. Ainda assim, os números crescem. Isso indica que o problema não está apenas na falta de leis, mas na sua efetividade.
A nova proposta sobre misoginia, embora relevante, enfrenta desafios semelhantes. Tipificar o crime é um passo, mas sua aplicação prática, especialmente em ambientes digitais e em manifestações subjetivas de discurso, exigirá critérios claros, estrutura de investigação e capacitação das autoridades. Sem isso, corre-se o risco de criar mais uma norma com baixo alcance concreto.
Além disso, há um vazio entre o que a lei prevê e o que a sociedade compreende. A própria pesquisa do IBGE aponta que muitos adolescentes não identificam situações de abuso. Isso revela uma lacuna de educação e informação que nenhuma legislação, isoladamente, consegue preencher.
Algumas iniciativas caminham na direção correta, como o fortalecimento de canais de denúncia, campanhas institucionais e a incorporação de temas como consentimento e respeito nas escolas. Mas ainda são esforços fragmentados diante de um problema sistêmico.
O enfrentamento da violência sexual e da misoginia exige mais do que punição. Exige prevenção. E prevenção passa, necessariamente, por conscientização. É preciso que crianças e adolescentes compreendam, desde cedo, o que é consentimento, quais são seus direitos e como identificar situações de risco. É preciso que famílias, escolas e instituições deixem de tratar o tema como tabu.
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