Violência obstétrica: um silêncio que precisa ser rompido
Reportagem da FOLHA aponta aumento de 59% nas denúncias no Paraná entre 2023 e 2024
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segunda-feira, 01 de setembro de 2025
Reportagem da FOLHA aponta aumento de 59% nas denúncias no Paraná entre 2023 e 2024
Folha de Londrina 
O crescimento de 59% nas denúncias de violência obstétrica no Paraná entre 2023 e 2024 expõe uma ferida ainda pouco enfrentada na saúde pública e privada. O relatório do Observatório de Violência Obstétrica do Nudem revela 83 registros em dois anos, com aumento expressivo em Londrina, onde os casos saltaram de um para cinco no período analisado. Os números, embora alarmantes, ainda estão longe de refletir a realidade, já que a subnotificação segue como uma barreira persistente.
A violência obstétrica não se restringe a agressões físicas. Engloba humilhações verbais, desrespeito à autonomia da gestante, procedimentos impostos sem consentimento e até a negação de direitos previstos em lei, como o acesso ao aborto legal. Ao lado disso, o relatório mostra que muitas mulheres relatam múltiplas formas de violência simultaneamente, o que reforça o caráter estrutural desse tipo de abuso.
O problema se agrava pela assimetria de poder na relação entre médicos e pacientes. O que deveria ser um espaço de acolhimento e cuidado, muitas vezes se transforma em palco de pressões, constrangimentos e decisões unilaterais. O caso de gestantes desencorajadas a tentar o parto normal, ou submetidas a cesáreas contra sua vontade, ilustra uma cultura que desconsidera escolhas.
A criação do Observatório foi um avanço importante, pois trouxe um canal seguro de denúncia. No entanto, apenas 15% das mulheres que recorreram ao Nudem já haviam denunciado antes em outro espaço. Essa estatística mostra que faltam políticas de informação e estruturas de acolhimento capazes de proteger a vítima e de combater o medo de represálias.
A resposta precisa ser ampla. É necessário investir em protocolos claros nos hospitais, treinamento contínuo das equipes médicas e fiscalização rigorosa por parte do poder público. A formação universitária também deve incorporar o debate sobre direitos das gestantes, quebrando a naturalização de práticas abusivas. Paralelamente, campanhas educativas são essenciais para conscientizar mulheres sobre seus direitos e fortalecer sua autonomia.
A violência obstétrica ainda permanece invisível para grande parte da sociedade. O aumento das denúncias não significa apenas mais casos, mas maior coragem das vítimas em romper o silêncio. Esse movimento precisa ser apoiado por instituições, profissionais de saúde e pela comunidade. Garantir um parto digno e respeitoso é questão de cidadania e de justiça social.
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