Levantamento feito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revela que pelo menos 42 pessoas morreram em confrontos relacionados a jogos de futebol nos últimos anos. O número coloca o Brasil na liderança mundial de mortes em estádios. Há dez anos, o país estava em terceiro na lista, perdendo para a Itália e a Argentina.

Para Luiz Carlos Ribeiro, doutor em história e coordenador do núcleo de estudo ''Futebol e Sociedade'' da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a violência nos estádios reflete um fenômeno urbano e exige atitudes mais inteligentes. ''Pedir que a torcida adversária compareça em número menor ou aumentar o policiamento não resolve o problema'', diz.

Por que a violência nos estádios está crescendo tanto?
De modo geral a violência nos espaços urbanos vem crescendo. Por exemplo, as pesquisas têm mostrado o crescimento da violência entre os jovens no mundo e em particular no Brasil. A violência no futebol não pode ser compreendida como um fenômeno específico do campo esportivo. Ela faz parte, sem dúvida, de um fenômeno urbano geral.

E por quais motivos a violência está aumentando de maneira tão expressiva?
É um fenômeno que vem crescendo nos últimos 30 anos sobretudo nas sociedades desenvolvidas. Um dos indícios é uma evidente desregulamentação do controle do estado em relação à esfera pública. Dessa forma, o desemprego aumenta, havendo um desajuste no mercado de trabalho e na sociedade. O futebol está nesse campo social e produz suas especificidades, como a torcida organizada.

O senhor acha que existe a possibilidade de acabar ou, pelo menos, reduzir as torcidas organizadas?
Não sei se acabar, mas diminuir sim. Existem torcidas organizadas que não têm interesse na violência. O que precisa é ter maior presença do estado e dos próprios clubes. Posso afirmar que muitos diretores de clubes são coniventes com as torcidas organizadas e de certo modo com a violência gerada por elas.

Para conter a violência nos estádios suscita-se a possibilidade de haver uma única torcida por jogo. É uma medida extrema ou necessária?
As experiências que já foram realizadas nesse sentido foram pouco eficazes. É uma medida paliativa e talvez extrema. Isso tem relação com uma certa euforia ou decepção da participação dos clubes nos campeonatos. Em uma situação muito particular eu acredito que seja uma atitude necessária, mas ela não é a solução do problema.

A torcida visitante ter uma cota reduzida nas partidas pode ser uma boa opção?
Essa medida já existe. No entanto, a violência não atinge 10% da população de um estádio. A medida é necessária em um momento de maior tensão, mas não é uma coisa que resolva o problema, pois a violência é algo mais geral e envolve a sociedade como um todo.

O policiamento nos estádios é o suficiente?
O que falta são ações inteligentes. Pedir que a torcida adversária compareça nos estádios em número menor ou aumentar o policiamento são atitudes que devem ser tomadas, mas não resolvem o problema. A questão é muito mais ampla e exige atitudes mais inteligentes.

E quais são as atitudes inteligentes?
A experiência europeia, particularmente a inglesa, tem configurado isso. É um fenômeno que tem significado um encarecimento do valor dos ingressos, ou seja, o torcedor cada vez menos é um apaixonado e cada vez mais é um torcedor consumidor que tem condição de ir ao estádio. Isso é uma tendência. Esse fenômeno que está se consolidando na Europa no Brasil não se efetiva porque as condições dos estádios são muito precárias. No Paraná, com raras exceções, você compra o ingresso numerado, mas a sua cadeira não está garantida. Há uma falta de controle e uma ação inteligente seria comprar meu ingresso na cadeira X e me sentar nesse lugar. Todo o sistema de segurança do estádio vai conseguir localizar os indivíduos.

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