Lugar de criança é na escola. O chavão é encarado por muitos pais como transferência de responsabilidades. Se o filho está estudando, não tem com o que se preocupar. Para a pedagoga e diretora de uma escola municipal de Londrina, Marli Fávaro, pais e professores devem dividir a responsabilidades sobre a criança. Em entrevista à FOLHA, ela apontou um problema ainda mais grave: jovens não estão aprendendo por problemas psiquiátricos. ''Quem está preso hoje é o dislexo, o analfabeto funcional''.

É possível identificar alunos ligados ao crime infiltrados na escola?
Sem dúvidas. Mas nós somos professores, não assistentes sociais ou policiais. Quando a gente identifica um possível criminoso em sala de aula, nossa preocupação é para quem encaminhar. Nós não temos o papel de repreender este jovem. Os professores correm risco de vida, não têm ninguém que nos resguarde para ir para casa, para trabalhar à noite. Se você denuncia, você fica exposto na comunidade.

O professor trabalha intimidado por estes alunos então...
Não. O professor tem que ser corajoso.

E como o colégio faz para combater este aluno violento?
Tem que repassar para a Promotoria, o Conselho Tutelar.

Internamente não tem muito o que fazer?
Não, porque a gente está aqui para dar aula. Às vezes fazemos papel de psicólogo, terapeuta, psiquiatra, e não temos formação para nada disso. Nós somos profissionais e queremos respeito, não agressão, xingamento. Queremos apenas cumprir a função da gente. O estatuto da criança e do adolescente tem direitos e deveres. A própria família esquece dos deveres, sabe apenas que eles têm direitos.

Os pais são os grandes responsáveis?
São três pontos principais: falta de limite, falta de responsabilidade e pais ausentes. Quando chamo um pai na escola e ele diz: ''Não sei o que faço com meu filho'', não é o juiz, o conselho tutelar ou o professor que vai dar jeito. A educação é obrigação da família, e a escola serve como complemento. A criança que não dá trabalho para a gente é aquela que tem uma família estruturada. Outro ponto muito importante é que a violência na escola não é simplesmente um problema de drogas, também é um problema clínico. Nós precisamos de médicos, psicólogos, psiquiatras. Quem tem problemas psicológicos não aprende. O mesmo currículo do aluno dito normal, que não tem problema nenhum, é aplicado para o aluno que tem problema. Eles estão inseridos no mesmo contexto.

Até onde vai a responsabilidade da escola nisso? Passou do portão acabou a responsabilidade?
Não. A escola tem a responsabilidade de ensinar, tentar identificar o problema do aluno e mostrar que ele precisa de tratamento. Mas a escola precisa de credibilidade. Se o professor identifica que o aluno está drogado, isto precisa ser comprovado por uma equipe médica. Se tenho um aluno apresentando problema neurológico, a escola quer que ele seja atendido. Nós não temos responsabilidade sobre questões médicas, e precisamos profissionais adequados para nos auxiliar, para atender estes problemas psiquiátricos. A escola quer que tenha vaga nos médicos, que tenha remédios, que o aluno não seja atendido longe da casa dele.

Esta falta de acompanhamento serve como justificativa para o aluno trilhar o caminho da violência?
É este problema de aprendizado que está gerando a violência nas escolas. Uma pesquisa feita por um psiquiatra em penitenciárias do Paraná mostrou que quem está preso hoje é o dislexo, o analfabeto funcional. Foi o professor o culpado por ele estar na penitenciária? Não. Foi o sistema que não lhe atendeu corretamente. Se ele não conseguiu aprender é porque ele tinha um problema psicológico que não foi identificado ou atendido corretamente.

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