VIOLÊNCIA NA CABEÇA - Sem tratamento, surtos violentos são comuns
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Rodrigo Batista<br>Equipe Bonde 
No dia 11 de fevereiro, um crime ocorrido no litoral chocou o Paraná. A professora universitária Jussara Rezende Araújo foi assassinada pelo filho, Matheus Araújo Bertone. O rapaz, que tem histórico de esquizofrenia, estava há quatro meses sem tratamento nem acompanhamento médico.
Alguns meses antes, um caso semelhante assustou a população de Londrina. A líder do movimento negro Vilma Santos de Oliveira, a Yá Mukumby, foi morta a facadas por Diego Ramos Quirino, um vizinho dela que estaria em surto. Outras três pessoas foram mortas na mesma ocasião.
No início do mês, o cineasta Eduardo Coutinho, de 80 anos, foi assassinado a facadas no Rio de Janeiro. O filho dele, Daniel Coutinho, foi preso pelo crime após tentar se matar. Ele também sofre de esquizofrenia.
Segundo o psiquiatra e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luiz Renato Carazzai, doenças que provocam surtos como esses não são raras. No caso da esquizofrenia, o paciente perde a noção da realidade, "ouve vozes e vê pessoas que somente ela consegue perceber". E 1,5% destas pessoas podem desenvolver surtos. Porém, no caso de pessoas que usam algum tipo de droga, a porcentagem salta para 13%. Em casos de transtorno bipolar, chega a 12% a quantidade de pessoas que desenvolvem surtos. E quando não recebem tratamento adequado, o esquizofrênico pode cometer atos de violência, inclusive contra pessoas ao redor dele.
Quais tipos de transtornos podem causar surtos?
A gente precisa dividir esse aspecto em três blocos: um bloco é o da doença que produz um surto agudo, um quadro de curta duração. Neste, há casos desde um abuso de substância química, de drogas, ou o álcool. Nas doenças psiquiátricas crônicas há o bloco das doenças de envelhecimento, que podem ser a demência e Mal de Alzheimer e as doenças funcionais, como propriamente a esquizofrenia, que é uma doença que vai agravando e o indivíduo fica períodos prolongados em surto. É uma doença caracterizada pela alteração de comportamento, de imaginação, de visão, de senso de percepção que são as alucinações e os delírios, que é o que faz com que ele perca a realidade. Em outro bloco temos transtornos de humor, principalmente o transtorno afetivo bipolar, que também pode dar um surto e é uma doença também crônica.
Existe algum estágio das doenças psicóticas em que as pessoas estão mais propícias a surtos?
Se pensarmos nos abusos de substâncias, são duas fases mais propícias: quando a pessoa tem intoxicação e quando entra em abstinência, ou seja, quando fica sem a droga. Isso muda a característica de sensação, de percepção, o pensamento começa a funcionar de uma forma diferente e ele cria imaginações, que podem de perseguição, paranoia, ou aquilo que a gente chama de esquizofreniforme, que é como se tirasse o paciente da realidade. Não é uma esquizofrenia, é um surto psicótico. Na esquizofrenia, à medida que a doença se agrava, esses surtos se tornam mais frequentes, até chegar a um estágio contínuo, uma espécie de "surto contínuo": o paciente fica meses, anos em delírio, que é uma alteração de pensamento ele acha que é Jesus Cristo, que veio para salvar o mundo, ou que as pessoas o estão perseguindo, que querem prejudicá-lo, matá-lo. Ele tem alteração de sensopercepção: vê coisas que não existem, ouve vozes, normalmente as vozes o ameaçam, xingam a pessoa, que fica mais agressiva, assustada, e pode cometer esses atos. E as visões também. Ele vê as pessoas o atacarem. Isso caracteriza a esquizofrenia: quanto mais grave está a doença, mais intensas são essas situações.
A violência dessas pessoas em surtos é comum?
A violência pode ser um dos sintomas, basicamente ligado ao tipo de delírio que ele tenha ou de alucinação. Em um delírio por drogas, quando ele começa a se sentir perseguido, quando as pessoas querem prendê-lo, prejudicá-lo, matá-lo, às vezes ele tem algum envolvimento com um traficante. Então é alguém que está muito assustado e pode se tornar agressivo por estar amedrontado. Outro dado é que ele pode se tornar agressivo quando está em abstinência. Então ele fica agressivo para tentar assaltar, roubar para conseguir dinheiro e buscar a droga. Mas a agressividade em si não faz parte desse quadro. Na flutuação do humor do transtorno bipolar, quando a pessoa entra em euforia, muitas vezes tem uma irritabilidade e agressividade, que, dependendo da intensidade, faz com que ele perca o controle. Aí ele pode agredir alguém ou se autoagredir. Na esquizofrenia, a pessoa começa a perder a noção de realidade, ao ponto de acreditar que muitas vezes ele é o salvador, e a gente ouve isso muito frequentemente. Por isso ele mata o pai e a mãe, irmão e avó, para libertá-los desse mundo, como se fosse um processo de salvação. Então não é propriamente uma agressividade em si, mas ele se imbui de um papel de libertação. Ele tem a consciência clara de que o que ele faz é certo.
Como os parentes podem influenciar, já que acontecem muitas tragédias familiares por conta desse tipo de problema?
O papel da família é extremamente importante, porque a pessoa que desenvolve esse quadro perde a noção de realidade. A família precisa ser o balizador dessa realidade, ou seja, perceber que a situação está inadequada e buscar ajuda. O que família não deve fazer? Primeiro: não deve minimizar o quadro, que é sério, importante, requer tratamento. Segundo: a família não deve assumir para si a responsabilidade de cuidar. O paciente precisa de tratamento médico psiquiátrico, muitas vezes com medicação, ou até com internação para conseguir equilibrar esse processo. Quando a família, por qualquer receio ou por preconceito, tenta absorver isso sem um tratamento adequado, o problema continuadamente progride. Isso vai fazer com que aumentem os riscos para o indivíduo. Ele pode, muitas vezes, tentar um suicídio, ter um acidente que o leve à morte, a agredir outras pessoas ou cometer um homicídio, não com intenção propriamente de matar, mas por perda da realidade.
Como é possível prevenir e tratar esses casos?
No abuso de drogas, é importante a prevenção dentro da família, das escolas, da empresa, no sentido da conscientização dos riscos e dos malefícios que a droga pode produzir. Nos transtornos de humor, a gente precisa perceber que o indivíduo começa a flutuar entre depressão, ansiedade, irritabilidade e que, se ele for tratado, previne muito a gravidade desses sintomas e dá uma qualidade de vida muito boa para o indivíduo. Nos transtornos de envelhecimento, como o Alzheimer, interfere a qualidade de vida, tipo de alimentação, como para qualquer doença física. Tudo o que um indivíduo faz na vida dele, o corpo cobra depois. Alguém que tem uma boa qualidade de vida, uma boa alimentação, tem pouco uso de álcool, não fuma, não usa drogas, vai ter uma boa qualidade de vida física e mental.
Na esquizofrenia há uma tendência genética para isso e que, basicamente, a prevenção é iniciar o acompanhamento médico o mais precocemente possível. Hoje temos um arsenal de medicações muito boas com grande eficácia e baixo efeito colateral. Tanto que, há 30 anos, tínhamos a indicação de internação. Hoje, quanto menos tivermos internação, melhor. O tratamento principalmente é em ambulatório, onde ele mantém o convívio com a família, funcionalmente ativo, socialmente ativo e vai tomar uma medicação como para qualquer doença clínica.
O tratamento é feito pelo resto da vida?
Na esquizofrenia, para a grande maioria dos pacientes, seria tratamento para a vida toda. Ele consegue se manter mais estável, mas usando medicação. Quando ele interrompe o uso volta a desencadear surtos. Num quadro bipolar, eu tenho um pouco mais de pessoas que vão poder fazer um tratamento e se manter com a medicação estável por algum tempo e gradativamente reduzir, até a tentativa de ficar sem remédio. Boa parte desses pacientes consegue ficar sem a medicação. Mas não é um tratamento de curto prazo, é um tratamento de dois a cinco anos. Em casos de abuso de drogas, a manutenção da abstinência, muitas vezes sem uso algum de medicamentos, mantém o indivíduo controlado.


