Casos de agressões de alunos a professores de escolas públicas paranaenses chamaram atenção nos noticiários nas últimas semanas. Em Londrina, uma professora foi agredida com uma barra de ferro por um aluno. Em Curitiba, o carro de uma professora foi incendiado. Em Rolândia, uma professora grávida de dois meses e meio perdeu o bebê depois de discutir e ser ameaçada por um aluno. No mesmo colégio, tempos atrás outro estudante quase agrediu o vice-diretor. Só não conseguiu porque foi controlado por quatro professores.
O Conselho Estadual da Educação (CEE) colocará o assunto em pauta em reunião agendada para a segunda semana de abril. Com atraso, a entidade vai elaborar uma proposição, a ser enviada ao Governo do Estado e aos municípios, com medidas concretas que venham barrar essa onda de violência. Confira a entrevista que o presidente do CEE, Romeu Gomes de Miranda, concedeu à FOLHA.

Como explicar o aumento da violência, em especial as agressões de alunos contra professores?
A rigor isso é apenas uma ponta do iceberg de um esgarçamento do tecido social. Isso não é uma questão pedagógica ou de administração escolar. É uma questão social. Por isso as escolas devem debater temas como o desemprego, a mortalidade infantil, o preconceito racial, que são valores da sociedade que interferem no cotidiano da escola. A violência é um reflexo a mais desse caldeirão.
Então, a violência não vem de dentro da escola?
Não é um problema de rebeldia, de desobediência. Confrontos de alunos com professores sempre aconteceram. Acontecem mais agora porque a crise em que vive o povo brasileiro é muito grande. Vivemos um índice de desemprego muito alto. Milhares de jovens de 15 a 24 anos perambulam pelas ruas em todo Brasil. Cerca de 40% não estudam nem trabalham, eles não concluem o ensino fundamental, metade não chega ao final da 4 série, e os que chegam não encontram emprego.
Existem cidades ou áreas de maior risco?
Acontece mais nas grandes e médias cidades do Paraná. Mas não dá para debitar isso por conta da escola. E por que não ocorre em escolas particulares? Porque os pais têm poder aquisitivo, os alunos têm aulas de vôlei, informática, esportes. Os jovens de classe média têm pais, famílias estruturadas, têm computador em casa, tempo para estudar, pais que podem orientar.
Qual a solução?
Os governantes têm que pensar na adoção de uma política de escolas em tempo integral. Isso vai amenizar a violência, porque a matéria-prima dessa violência são os milhares de jovens que perambulam pelas ruas. Em tempo integral é possível conter os alunos com atividades de aprendizado, com práticas esportivas, orientações de toda sorte.
O PAC da educação traz algum alento?
O PAC nem toca nisso. Recentemente, por exemplo, restabeleceu-se o debate sobre a redução da maioriadade penal, como se isso resolvesse o problema da violência. Nem se cogitou que uma solução seria a implantação da escola integral. E por que o governo federal não faz isso? Dinheiro tem, mas não se prioriza recursos para a educação.
O que a comunidade escolar pode fazer?
As escolas têm que se abrir para a comunidade no sábado, domingo, feriados. Acolher os jovens. Onde esse tipo de iniciativa foi aplicada, deu bons resultados. O que se vê é que os jovens que não têm acesso às escolas têm uma tendência a apedrejar. Os jovens que estão agredindo clamam da forma que podem. A escola deve incorporar os alunos, mesmos os agressivos, e trazê-los para atividades em fins de semana. Aí esses jovens vão ter onde canalizar a violência. Ao mesmo tempo, é preciso organizar uma administração coletiva e realizar debate sobre regras disciplinares.

mockup