A droga não tem preconceito social. Vicia ricos e pobres. É na hora de largar o vício que a diferença aparece. Quem tem dinheiro se interna numa clínica de desintoxicação; quem não tem, precisa de muita força de vontade. Infelizmente, força e vontade são as duas primeiras coisas que a droga consome.
Os números da violência em Londrina estão intimamente ligados à droga e aos adolescentes. Eles aparecem em quase todos os assassinatos que aconteceram nos últimos meses ou como vítimas ou assumindo a autoria dos crimes. De janeiro de 2001 a abril deste ano 61 jovens menores de 21 anos morreram assassinados. Muitos foram executados; alguns, com requintes de crueldade, como Carlos Alexandre de Paula, de 17 anos, degolado e que teve os dedos quebrados. Outros, como Ladislau Galdiano, de 16 anos, morto com 12 tiros. Neste último caso, três adolescentes cometeram o crime. O motivo? Tráfico de droga.
Polícia, Justiça e governo concordam que a droga está levando os adolescentes para o crime e para a morte. No entanto, faltam locais e serviços de recuperação que tratem adolescentes com dependência química. ''Temos muitos jovens que querem se livrar das drogas mas não temos nenhum programa de internamento específico para eles. Os poucos locais disponíveis são ligados à igrejas, têm reestrições e nem sempre há vagas'', diz Rejane Tavares, do Conselho Tutelar.
Só nos primeiros cinco meses deste ano, a polícia apreendeu 270 menores, número quatro vezes maior que o de 2001. Quase todos têm algum tipo de dependência química: ''Para internar um adolescente viciado, hoje, a gente precisa fazer o encaminhamento através do IASP, que é Instituto de Ação Social do Paraná. Eles é que determinam quando e onde o adolescente vai ser atendido. Existe uma fila enorme porque o número de vagas é reestrito'' reconhece a promotora Solange Vicentin, da Infância e Juventude. Ela fala apenas dos adolescentes infratores, que são apreendidos pela polícia. Os outros, que não cometeram nenhum crime, têm que tomar a iniciativa de procurar algum tipo de ajuda.
No Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator, Ciaad, 80% dos menores têm problemas com drogas. Ou estão viciados ou estão sendo usados por traficantes para comercializar a droga. '' Eles começam cometendo pequenos furtos para pagar o vício. O próximo passo é começar a passar a droga. Aí muitas vezes eles ficam devendo para o traficante; são quantias pequenas, de R$ 10 a R$ 300. Por causa disso eles matam e são mortos'' diz o diretor do Ciaad, Marcio Fila.
A droga mais comum entre os adolescentes era a maconha. Agora é o crack, um subproduto do refino da pasta base de cocaína, que é consumido em forma de pedra para ser fumada. Elas custam barato R$ 5 cada. O crack tem um sabor adocicado e o efeito é quase que instantâneo no organismo. Quem fuma fica se sentindo um ''super-humem''. O efeito dura pouco, de meia hora a 60 minutos. Se tiver dinheiro, o usuário fuma sem parar. ''Já ouvi relatos de meninos que fumaram três dias seguidos'' alerta Venair Paiva, coordenadora do Espaço Vida, um programa da Secretaria Municipal da Saúde que trabalha com adolescentes viciados em drogas. Além de criar dependência química rapidamente, o crack destrói o sistema nervoso central, causa alucinações, tira o apetite e afeta o metabolismo. ''Os viciados entram num processo de degradação horrível. Deixam de tomar banho, chegam a comer lixo; ficam isolados e muito agressivos. É a pior droga para ser tratada e infelizmente está ficando muito comum. A oferta aumentou e o preço caiu'' afirma Venair.
''É muito difícil largar do crack. Eu estou sem fumar há mais de oito meses e, às vezes, ainda sinto o gosto doce na minha boca'' confessa J.C., de 16 anos. Ele está internado numa entidade que trabalha com a recuperação de dependentes químicos em Londrina. J.C. teve o primeiro contacto com a droga quando tinha 9 anos: ''Eu morava num bairro muito pobre, experimentei por curiosidade, gostei e fiquei 10 anos no vício''conta ''Nesse tempo perdia confiança da minha família, larguei a escola na 5 série e a coisa ficou tão feia que minha família me botou para fora. Fiquei 6 meses morando na rua''. Ele foi auxiliado por uma família, que conseguiu encaminhar o menino para a entidade. Para J.C., o internamento foi um fator chave para a recuperação: ''Vou sair daqui no mês que vem e quero ter uma vida nova. Se eu tivesse ficado na rua poderia já ter morrido. Quero voltar para casa, voltar para a escola e ser engenheiro. Minha família me deu um voto de confiança quando eu vim para cá e eu não quero mais decepcionar eles''diz.
Para a psicóloga Cintia Maiola, que trabalha na entidade, sem internamento os dependentes químicos dificilmente se recuperam: ''O internamento tira a pessoa do contato com a droga. Num primeiro momento ela consegue tempo e espaço para respirar e juntar forças para lutar. Se o viciado tiver que enfrentar o vício sozinho ele não consegue vencer, principalmente se for jovem'' conclui.

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