VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - ''Criminosos são formados em casa''
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Desde que a Lei Maria da Penha foi criada, há um ano, visando coibir a violência contra a mulher, já foram registrados em Londrina, por volta de 800 casos similares. Com a soma da violência contra crianças e adolescentes dentro dos lares, a estatística alcança 1.500 casos. Para o titular da Promotoria de Inquéritos Policiais (PIP) em Londrina, Eduardo Diniz Neto, a exposição das crianças a essa violência é uma das maiores causas da formação de futuros infratores. Além disso, ele afirma que mais de 80% dos casos envolve consumo excessivo de álcool.
Quais as principais formas de violência doméstica?
Nós nos concentramos basicamente na criança, no adolescente e na mulher. Nesses casos, o que prepondera é o fato da violência se dar no âmbito familiar. Nessa perspectiva, infelizmente, vemos mais comumente autores desses crimes tratando-se dos próprios pais, avós, padastros, tios e outros familiares. Isso independe do sexo da criança. Já no âmbito da violência contra a mulher, não alcança apenas os casos de lesão corporal, vias de fato, mas também ameaças, violência moral, psicológica e atentados ao patrimônio.
Há dados estatísticos em Londrina?
Podemos dizer que Londrina está na média das estatísticas nacionais. Os mais graves e que representam 10% de todos os casos de violência contra criança e adolescente são de abuso sexual. Aí inserindo o estupro, atentado violento ao pudor, corrupção de menores, exploração da prostituição infantil e a pedofilia. O apanhado estatístico oficial soma por volta de 800 inquéritos policiais de violência doméstica contra mulheres e 500 contra crianças e adolescentes, isso de um ano para cá. No total, incluindo processos e investigações preliminares, temos 1.500 casos de violência em apuração.
Existem características comuns entre essas famílias?
Mais de 80% das condutas são praticadas sob influência do álcool ou entorpecente. Nessa mesma perspectiva, em mais de 90% dos casos há uma habitualidade nas agressões. Quando a mulher chega ao ponto de ir até a delegacia, já vem sofrendo algum tipo de violência física, moral ou psicológica, há anos. Já o perfil sócio-econômico dessas vítimas mostra que a grande maioria está relacionada com uma hipo-suficiência econômica e financeira - nas famílias com maiores problemas financeiros, é mais recorrente essa violência. Essas pessoas têm menos inibições de procurar a polícia porque é sua última esperança. Nas classes média e alta, normalmente se procura resolver isso no âmbito da vara de família, onde os processos correm em segredo. Os mais ricos têm mais temor da exposição.
E o assédio?
Normalmente se dá como alguma forma de coação moral, pressão psicológica, para se atender algum desejo, normalmente de ordem sexual. A mulher não quer se submeter a algum tipo de ato fora da conjunção carnal tradicional e ele passa a condicionar, a cortar o dinheiro, a importunar, até alguma forma de perturbação da tranquilidade, no mínimo, para não dizer que pode chegar a um estupro, ou atentado violento ao pudor, dentro do casamento.
O que ocorre com as crianças expostas a essa violência?
Já está comprovado que a criança ou adolescente submetido a algum tipo de abuso sexual, ou mesmo a maus tratos, perde a auto-estima, o auto-controle, torna-se socialmente arredia e muito mais propensa a cometer alguma infração no futuro. Se nós pegarmos hoje os jovens infratores, ou criminosos, logo após os 18 anos, vamos chegar à constatação de que mais de 80% deles foram vítimas de algum tipo de violência quando menor, ou foram expostos à violência, contra a mãe, por exemplo. Então, se pudermos coibir a incidência desses casos, acredito que vamos dar um grande passo para que, nas gerações futuras, não tenhamos os índices de criminalidade que temos hoje.


