O assunto é polêmico e, principalmente, revoltante. A violência contra a mulher, que resulta em danos físicos e morais, pode ser sinônimo de machismo, tirania e crueldade. Sendo a força masculina geralmente superior à feminina, o ato também demonstra covardia. No entanto, muitos homens não se intimidam e agridem suas parceiras. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), mostram que uma em cada seis mulheres no mundo sofre violência doméstica. A pesquisa aponta que 60% dos casos foram cometidos por maridos ou companheiros.

Em Londrina, segundo informações da Delegacia da Mulher, foram registrados 758 inquéritos em 2008. São realizados diariamente, de dez a 15 atendimentos. Em entrevista à FOLHA, a assistente social Sandra Coelho, que trabalhou dez anos com mulheres que sofrem violência e dedicou sua dissertação de mestrado ao assunto, discute os altos índices e fala da Lei Maria da Penha (nº 11.304/06), que criou mecanismos para coibir a violência contra a mulher.

Para ela, o conhecido jargão ''em briga de marido e mulher ninguém mete a colher'' é um mito, pois as pessoas não devem se omitir diante de situações de violência.

Existe uma explicação para o alto índice de violência contra a mulher?
Esse tipo de violência é antiga não só na nossa sociedade. Acontece devido à relação desigual entre homens e mulheres. Tem muito a ver com a visão de mundo equivocada que coloca a mulher em posição de inferioridade em relação aos homens. Na minha dissertação de mestrado percebi que a violência é muito banalizada para alguns homens, que nem sabem explicar os motivos da reação violenta. Porém, verifiquei que é uma reação machista de uma pessoa que tem dificuldade de dialogar.

De modo geral, quais os principais motivos que levam à agressão?
Na minha dissertação de mestrado estudei os homens agressores, enfocando os valores da masculinidade numa sociedade que sustenta relações violentas repetitivas. Analisando 430 casos de violência, concluí que os principais motivos da agressão são o modelo tradicional de casamento, as diferenças entre homens e mulheres que tomam significados culturais e o sentimento de posse em relação à mulher. Os valores da masculinidade, a naturalização da violência e a dificuldade para perceber a gravidade dos atos também ''autorizam'' os homens a agirem com violência.

Por que muitas mulheres ainda sofrem caladas?
Há vários fatores que fazem com que a mulher tenha medo de denunciar. Um deles é a relação afetiva que ela mantém com o agressor, que faz parte da convivência familiar dela. Dados mostram que em cerca de 70% das agressões o autor da violência é alguém que mantém uma relação afetiva ou conjugal com a mulher. As ameaças constantes relacionadas à questões materiais e à guarda dos filhos também colaboram para a mulher não denunciar. A questão financeira é outro fator que inibe a denúncia. Além disso, o medo de expor os filhos socialmente faz muitas mulheres sofrerem caladas. Já vi mulheres idosas que sofreram violência a vida inteira e foram denunciar pela primeira vez. É um absurdo. Há muita dificuldade de rompimento.

Nesse contexto, qual a importância da Lei Maria da Penha?
Até sua promulgação os crimes de violência contra a mulher eram atendidos nos juizados especiais criminais, sendo vistos como crimes de menor potencial ofensivo. Havia muita demora e a penalização era muito branda. A Lei Maria da Penha prevê a criação de juizados específicos e traz grandes avanços, garantindo atendimento multidisciplinar e estabelecendo a tramitação conjunta dos feitos criminais e cíveis. Além disso, dentre outros avanços, admite prisões preventiva e flagrante, obriga o inquérito policial e proíbe penas pecuniárias, como multa e cestas básicas. No entanto, ainda falta instalar a Defensoria Pública no Paraná, que é prevista na Lei. Pouquíssimos estados tem essa defensoria. A sociedade civil deveria provocar grandes movimentos para que o Estado oferecesse advogado para quem não tem condições de pagar.

A Lei Maria da Penha não permite que a mulher retire a denúncia, o que antes era possível. Isso é bom?
A Lei coloca que a mulher só pode desistir da denúncia frente ao juiz. Acredito que isso seja um fator positivo. Dar continuidade à denúncia vai coibir a violência, preservar a integridade física e psíquica da mulher, que vai receber proteção e acompanhamento de qualidade. Agora a delegacia tem a obrigação de informar tudo à mulher, que se encoraja e vai até o final do procedimento.

Teoricamente a Lei trouxe muitos avanços, mas e na prática?
Depois da instauração da Lei as mulheres passaram a procurar mais as delegacias. Durante 2007, 64 homens foram presos e só no primeiro semestre de 2008 esse número subiu para 75. A mulher, de fato, se encorajou com a Lei.

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