Violência despolitizada
Arlete Salvador
Manifestações contra a violência urbana são semelhantes a passeatas ecológicas em defesa de melhor qualidade de vida. São uma unanimidade. Ninguém, em sã consciência, deixaria de concordar com a necessidade de pedir paz nas ruas ou a preservação da natureza para o bem da humanidade. São bandeiras comuns a todos os cidadãos, independentemente de idade, religião, filiação partidária ou opção sexual. É fácil participar de movimentos assim porque não exigem definições e compromissos. São movimentos despolitizados.
A unanimidade em torno de temas como a violência termina quando se trata de escolher os remédios para eles. Todo mundo é contra a violência, não há dúvidas. É salutar que assim seja. Já imaginou se estivéssemos numa sociedade que prega a violência? Mas ser contra a violência e participar de uma manifestação pela paz não resolve o problema.
O que resolve é propor e defender soluções e políticas públicas capazes de atacá-lo de frente. Aí, a unanimidade acaba. Uma manifestação em favor da pena de morte não teria tantos participantes, embora a idéia seja apregoada por muitos como forma de reduzir a violência. Proibir a venda de armas é outra opção delicada. Aumentar o policiamento ostensivo é mais uma. Dar melhor tratamento aos criminosos também.
Apoiar esta ou aquela solução para o problema significa tomar posições políticas e maduras. Equivale a deixar de reclamar e, de fato, comportar-se como agente transformador da sociedade. Para isso, é preciso mais do que se vestir de branco em nome da paz, embora se vestir assim seja uma boa maneira de começar o processo de participação política na vida do País. É necessário cobrar das autoridades a execução de medidas concretas para reduzir o problema – medidas, como está dito acima, que representem as nossas convicções pessoais sobre qual é o melhor caminho a seguir.
Sem propostas concretas e realistas para solucionar ou pelo menos reduzir a violência, nenhuma manifestação pela paz traz resultados. O que estaremos fazendo nas ruas vestidos de branco? Pedindo aos bandidos que deixem de roubar e assassinar pessoas? Se fosse assim fácil, tantas outras manifestações do gênero já teriam posto fim às tragédias urbanas.
O que faltou nas anteriores e precisa ser feito agora é politizar a manifestação. Esperar e cobrar dos organizadores que expliquem como acabar com a violência e manter a paz.
Esse é um tema complexo e de solução a longo prazo. A situação econômica do País, a desigualdade social, o desemprego, o sistema penal e a própria atuação da polícia são componentes dele. Mudar tudo isso é tarefa para mais de uma geração. Mas, enquanto o tema for tratado apenas como uma bandeira festiva e amorfa, porque nela cabe confortavelmente todo mundo, nenhum transformação acontecerá. Nem daqui a 100 anos e com uma passeata pela paz por ano.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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