Violência da cidade - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de março de 1999
Fernando José Dias da Silva 
Se você é pobre, azar seu. Mas se você é rico, também azar seu. Pobre é pobre e todos nós sabemos que sempre teve vida dura. Só que de uns tempos para cá o pessoal que tem algum no bolso vem passando por sérios dissabores. Os ricos também sofrem. E sofrem porque estão com medo. Melhor dizendo: estão apavorados que seus filhos sejam sequestrados, que as suas casas sejam invadidas e que, por causa de um relógio, sejam metralhados em um cruzamento.
Por isso a melhor maneira de ganhar dinheiro nesses tempos de recessão é investir em segurança. Prova disso é a publicidade de uma empresa de vigilância que foi veiculada nos jornais mais importantes de São Paulo. É um anúncio de meia página informando que a empresa tem equipamentos de ponta, até rastreadores via satélite e equipamentos a laser. Os antigos guarda-costas viraram James Bonds e disputam espaço nos jornais com anunciantes tradicionais como bancos, companhias de seguros, empresas de automóveis e grandes lojas.
A blindagem de carros também é atividade em expansão. Segundo o presidente de uma empresa especializada a decisão da blindagem não é mais destinada somente às pessoas muito ricas. Executivos e empresários da classe média alta já estão aderindo à blindagem pelo medo da violência urbana. Cerca de 63% de nossos clientes são pessoas físicas que blindam o próprio carro, o da esposa e dos filhos.
A blindagem é uma indústria que tem dobrado as suas atividades a cada ano. E cada carro que passa pelo processo fica mais caro em cerca de US$ 40 mil. Já, já vão inventar minitanques para o transporte individual urbano. Poderão ser do tipo sedan, mais econômico, de luxe, bem mais confortável, e o esporte, pintado com cores mais vivas como amarelo ou vermelho-ferrari, todos com metralhadora e dispositivo solta-fumaça para dispersar perseguidores.
Não é mole ser rico num país em que 10% tem uma renda 21 vezes superior a toda a renda dos 40% mais pobres. E vai piorar porque cada vez mais o Estado deixará de ter condições para cumprir com as suas obrigações de proporcionar um nível razoável de segurança para a população. E o engraçado é que os ricos também são responsáveis por isso. Pela sua própria insegurança ao cerrar fileiras na batalha pela desregulamentação, pela desconstitucionalização e pelo emagrecimento do Estado. Com isso se tira o instrumental para que o aparelho de segurança possa se contrapor à sofisticação moderna da violência.
Mas isso pode não acontecer. Pode ser ainda pior. O sociólogo francês Pierre Bourdieu acha que as sociedades mais avançadas, o que não é o nosso caso, podem caminhar do Estado social ao Estado penal. Basta insistir numa política econômica baseada na ignorância ativa dos custos que representam os cortes ou mesmo o fim de programas sociais. Segundo Bourdieu o dinheiro que não for destinado para escolas ou creches será, cedo ou tarde, destinado às prisões.
De acordo com o cálculo dos nossos oráculos nós teremos uma inflação de 16,8% no ano, nem mais nem menos. Estando proibida a reindexação de salários e permitida diminuição de investimentos com caráter social. Tudo isso dito com a tranquilidade dos sábios. Eles só não dizem como a coisa vai terminar.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


