Violência contra violência - Arlete Salvador
Violência
contra
violência
Arlete Salvador
Aos trancos e barrancos, sem muita clareza dos objetivos e de como aplicá-la, o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, sancionou uma lei que obriga os bares a fecharem as portas à 1 hora da madrugada. A justificativa da idéia é reduzir a violência na cidade. É sabido que a maior parte de homicídios individuais ou em chacinas ocorre à noite e em bares da periferia. O álcool, de fato, é um componente sério na escalada da violência, assim como o porte ilegal de armas. Juntos, pobreza, bebida e revólver formam um trio da pesada.
Antes mesmo de vigorar, a lei parece ter nascido morta. Não há como fiscalizar tantos bares e botecos espalhados pela cidade. Também é muito difícil mudar a cultura de uma metrópole famosa por funcionar 24 horas por dia e mandá-la dormir mais cedo. Ainda mais desafiador é convencer os paulistas - e brasileiros de forma geral - de que bebida é tão ou mais perigosa que cigarro ou um revólver no porta-luvas do carro.
Quem não bebe álcool ou bebe pouco sabe disso. Encontrar os amigos num bar e ficar só no suco de laranja é motivo de piada. Chegou-se ao cúmulo de condenar as pessoas por fumarem e, ao mesmo tempo, por não beberem. Pais têm pavor que seus filhos adolescentes aproximem-se de maconha, mas são bastante compreensivos quando os vêem chegar bêbados de madrugada. Alguns chegam a ver nesse comportamento sinais de virilidade e adequação à vida adulta.
Bem se vê que a nova lei seca vai acabar no esquecimento. Enquanto é novidade, serve de brincadeira para frequentadores noturnos dos bares. Passados os primeiros dias, ninguém se lembrará mais dela. Nem o prefeito, que teve seus minutos de glória com a confusão nos bares e as discussões em rodinhas regadas a cerveja gelada.
Uma lei como essa não pega porque não é séria. Ninguém acredita que realmente reduzirá os índices de violência na cidade. Seria muito simples. Mas o fenômeno da violência é muito complexo para ser tratado com um fechar de bares numa determinada hora. Tem a pobreza e a falta de lazer na periferia como os fatores mais determinantes. É para os bares que muitos trabalhadores vão à noite em busca de bebida ou de companhia para conversar. Eles não têm uma televisão em cada quarto ou um clube para encontrar os amigos.
Pode-se alegar que, enquanto não se resolve a pobreza, cidadãos estão morrendo nas ruas e é preciso fazer alguma coisa para evitar isso. Só que essa alguma coisa não é uma lei torta como a do Pitta. A medida poderia ter alguma validade se viesse acompanhada de outras, mais responsáveis. Acima de tudo, ela poderia ter sido aplicada com um pouco mais de compreensão. Veio de cima para baixo, sem consulta, com violência. É mais violência num mundo de gente acostumada a ser maltratada nos ônibus, nas filas do desemprego e até nos empregos. Dia após dia. Anos. Uma vida inteira.
É irônico notar que, para defender as vítimas da violência, use-se de mais violência, agressão e intolerância. Esse círculo vicioso não se rompe nunca.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





