11 de setembro de 1973: o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, é bombardeado pela Força Aérea e em seu interior o presidente Salvador Allende, 65 anos, suicida-se. Termina a primeira experiência mundial de um governo socialista eleito democraticamente.
11 de setembro de 1998: o general Augusto Pinochet, líder do golpe que depôs Allende e dono do poder até março de 1990 é, aos 82 anos, um pacato senador vitalício. O Palácio de La Moneda, restaurado e incrementado com um bunker subterrâneo, está agora em mãos da Democracia Cristã.
Vinte e cinco anos separam as duas datas, período que provocou profundas mudanças no Chile, país que apresenta os melhores indicadores econômicos da América Latina. O Chile mudou, e para melhor; o mundo também mudou, e muito, mas teria melhorado?
A ‘‘subversão’’, como eram chamados pela direita os movimentos da esquerda na América Latina, está esmagada. O militarismo, que conviveu com a ‘‘subversão’’, precedendo-a ou sendo sua consequência, está esmagado. A morte de Allende foi o presságio de que o socialismo e seu irmão gêmeo, o comunismo, estavam com os dias contados. Quando Allende partiu, seus seguidores, além e aquém dos Andes, ainda sonhavam com a Utopia. E a Utopia seria definitivamente sepultada 16 anos depois, com a queda do Muro de Berlim, a dissolução da União Soviética etc.
A Utopia cedeu o lugar, ou foi sufocada, pela globalização econômica. Não há mais disputas ideológicas, os Estados Unidos triunfam absolutos, os russos, que detém o segundo maior arsenal nuclear do mundo, estão na lona, deabulam de crise em crise, enterram-se no pesadelo do pós-comunismo e se perdem nos labirintos do pré-capitalismo. Não há mais guerras entre o Bem (o Ocidente capitalista) e o Mal (o Oriente marxista ou muçulmano); a África, a sempre pobre África, foi abandonada de vez já que o mundo globalizado tornou obsoletas as teorias e práticas geopolíticas. Os países do Sudeste Asiático, convulsionados durante as mais de duas décadas que sucederam à sua independência, deixaram-se envolver pelos tentáculos do mercado e curvaram-se ao poderio japonês - e, como o Japão, estão sendo arrastados pelo turbilhão financeiro e econômico mundial.
A Utopia está morta. O Deus Mercado é o senhor do mundo, senhor absoluto de nosso destino. E este é um deus irascível, instável e imprevisível, que premia sem critério e pune sem clemência. Há quatro anos, sua vítima foi o México; no ano passado, a Ásia, há dois meses a Rússia. Hoje, a vítima somos nós.
A Utopia, desde que foi concebida por Thomas Morus, não tinha outro destino que não a morte em si mesma, pois essa era a sua essência, seu status quo. Sua roupagem mudou com os séculos, e neste personificou o férreo controle estatal da atividade humana, a coletivização dos meios de produção e do trabalho. A um ano, três meses e alguns dias do fim do segundo milênio, a Utopia que mobilizou o mundo durante oito décadas neste século está extinta. Mas seu sucessor - e ao mesmo tempo antecessor, pois rege os destinos do mundo há séculos - dá sinais de esgotamento. Tornou-se tão poderoso que passou a consumir a si próprio, e as Bolsas de Valores de todas os grandes centros comerciais devoram-se entre si num ritual macabro e insaciável de autofagia.
Os radicais bolcheviques, que levaram Lênin ao poder; os ingênuos seguidores dos guerrilheiros de Sierra Maestra, que tentaram reproduzir no continente os feitos de Fidel Castro - o único sobrevivente, embora moribundo, da Utopia - não seriam capazes de produzir efeitos tão nefastos em seu arquiinimigo, o capitalismo, quanto os que capitalistas estão hoje causando em seu deus, o Mercado e seus acólitos, que atendem por nomes apocalípticos de Dow Jones, Nikkey, Ibovespa...
Vinte e cinco anos depois da morte de Allende, podemos perguntar: a globalização econômica, e seus propalados efeitos benéficos sobre as relações e desenvolvimento humanos, não teria sido a mais enganosa de todas as utopias?

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