A idéia foi extremamente simples, mas reveladora: pegar os resultados obtidos por 287.719 alunos da 4 e 8 séries do ensino fundamental e 3 do ensino médio no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e comparar as notas com o grau de utilização do computador.

Na prova, os estudantes tiveram que responder à seguinte pergunta: você usa o computador para fazer seus deveres de casa - com as seguintes alternativas: sempre, quase sempre, raramente e nunca. Os resultados foram abordados em entrevista à FOLHA por um dos professores que coordenaram a pesquisa, Thomas Patrick Dwyer.

O que o levou a fazer a pesquisa?
Faço parte de um grupo de professores que estuda os impactos sociais da informática. A gente levantou a bibliografia científica e viu que há muito mais resultados indeterminados do que positivos ou negativos sobre o uso do computador. Isso reforçou a sensação de que existe algum problema. Mas confesso que ficamos um pouco espantados com as conclusões do levantamento.

Quais foram elas, em linhas gerais?
Dois resultados devem ser salientados. Em todas as classes sociais, usar o computador de maneira intensa levou a uma nota pior do que os que usam pouco ou não usam. Por outro lado, usar de maneira mais leve, ou ''raramente'' pela definição do Saeb, pode ser melhor do que não usar. Um outro resultado disso é mais de reflexão, ou seja, está se colocando muito dinheiro para levar computadores às salas de aula sem que se saiba o resultado.

Houve diferença de resultados entre as diferentes classes sociais?
A grosso modo, muito pouco. Quando você chega nas sutilezas, tiveram duas coisas. Uma é que, quanto mais jovem a pessoa que usa o computador, pior é o resultado. Quanto mais baixa a classe social, também. Ou seja, na medida em que vai subindo de classe social e de idade, o uso do computador começa a se associar a efeitos mais positivos.

O resultado indica que a política de inclusão social pode estar equivocada?
Não devemos esquecer que o resultado se limita a Português e Matemática. Então, do ponto de vista da ciência, é um resultado limitado para generalizar. É bom que, antes de jogar o bebê e a água do banho toda fora, a gente faça algumas pesquisas mais apuradas. Pode ser que o computador esteja ajudando em História e Geografia, por exemplo, mas não em Matemática e Português. Além disso, levantamos também a hipótese de que as pessoas que usam muito o computador, inclusive para seus deveres de casa, podem estar desperdiçando bastante tempo com outras coisas e não se dedicando à atividade final. Ou seja, os alunos falam para os pais que estão usando para estudar Matemática, mas na verdade podem estar num chat ou vendo uma das milhares de coisas que têm na internet.

E o papel do professor?
Essa é outra questão que, certamente, posso falar de maneira mais forte. Talvez se negligenciou um pouco o papel do professor nisso tudo. Ou seja, a base de qualquer sistema educacional é o professor, então teria que perguntar qual o preparo que tiveram, qual a idéia pedagógica que existe por trás da implementação do computador e seu uso para Matemática e Português. Temos de saber se não estamos atirando no alvo errado quando colocamos o computador para trabalhar nessas matérias, por exemplo.

Há alguma dica para os pais?
O bom senso: desconfie da idéia de que o menino que passa muito tempo no computador está estudando, ele pode estar fazendo mil outras coisas e não estudar. Talvez seja o caso de voltar para os livros, para o lápis, para trabalhar de maneira mais tradicional nestas matérias. Diria que tudo, com moderação, pode ser melhor do que a idéia de que o computador é o salvador da pátria.

De forma geral, a internet, que já foi considerada uma ferramenta fantástica para a educação, pode ser um risco para os jovens?
A gente já viu outros instrumentos fantásticos para ajudar a educação no passado: a idéia de que o rádio poderia transmitir a escola, depois a de colocar satélites, ter vídeo em todas as salas de aula, como se fosse uma resolução do problema da educação. O ponto é que a educação passa, fundamentalmente, pelos professores. Então a gente tem que desconfiar quando alguém imagina que a tecnologia pode fazer o trabalho que os humanos fazem.

Qual sua reflexão pessoal sobre os resultados do estudo?
Olha, tem uma coisa geral que digo a título de conclusão: por que se investiu tanto sobre essa questão de desigualdade digital? O Brasil tem problemas muito sérios com desigualdades e se focou muito, nos últimos tempos, a desigualdade digital. Então, minha pergunta é: será que se jogou toda essa atenção no computador para justamente evitar falar um pouco mais sobre o resto? (Leia mais sobre o assunto em Especial

mockup