Vigilância contra a cólera - Armando Raggio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de maio de 1999
Armando Raggio 
A cólera é uma doença infecciosa que se caracteriza por diarréia e vômitos com desidratação e câimbras pelo corpo. É uma doença fatal quando não reconhecida a tempo e não tratada corretamente. O princípio básico do tratamento é a reposição de líquidos o mais rápido possível, de modo a evitar que o indivíduo entre em colapso por desidratação e acidose com choque hipovolêmico (redução acentuada do sangue circulante), seguido de coma e morte.
Além de se transmitir pela água contaminada, a cólera pode ser transmitida pelos alimentos, atingindo as pessoas através de surtos muito semelhantes aos conhecidos surtos de toxoinfecção alimentar.
No Brasil encontra-se cólera na Região Nordeste ou casos importados dessa região reproduzem surtos locais em qualquer parte do País. Esta condição de reservatório da cólera não é privilégio do Nordeste, podendo se repetir em qualquer cidade brasileira desde que permaneçam aí pessoas infectadas contaminando o meio ambiente.
Paranaguá teve o primeiro caso de cólera, em 19 de março de 1999, confirmado por exame de laboratório uma semana depois. Era sexta-feira, 18 horas. No dia seguinte, a notícia era do conhecimento de todos por iniciativa da própria Secretaria da Saúde. A confirmação da epidemia causou impacto imediato e dentre reações diversas obteve-se a mais importante: o alerta geral em todo o Paraná.
Em 19 de abril, registrou-se o último caso de cólera confirmado laboratorialmente em Paranaguá. Desde a primeira suspeita confirmada, até esta última foram exatamente 30 dias. Um mês de trabalho árduo em parceria com as prefeituras e as secretarias municipais de saúde, com os hospitais do litoral, com os médicos, com os enfermeiros e todos os profissionais de saúde.
No meio da epidemia, dia 10 de abril, foram visitados em Paranaguá 11.600 domicílios, 46.000 pessoas, e a seguir, no dia 15 de abril, em Guaraqueçaba e Pontal do Paraná, no dia 16 de abril, em Antonina e Morretes, e no dia 17 de abril em Matinhos e Guaratuba, somando quase 16 mil domicílios e 80 mil pessoas visitadas.
Foi epidemia para a cidade-foco - Paranaguá, origem de mais de mil comunicações notificadas, com 466 casos confirmados, 21 por exames laboratoriais positivos e 445 por comparação clínica e epidemiológica, inclusive os três óbitos reconhecidos por estudo retrospectivo. Epidemia para a cidade, mas apenas mais um surto da epidemia brasileira iniciada em 1991.
Agora, na ausência de casos novos, devemos permanecer em alerta mesmo com a interrupção da epidemia. O pior da cólera não é o que se evidencia através de sinais e sintomas, mas a alta proporção de infectados sem qualquer manifestação clínica. São os portadores sãos, único reservatório reconhecido universalmente de guarda e reprodução do vibrião colérico.
Saneamento básico completo é o único recurso de controle definitivo de diarréias agudas e da cólera em essencial. Isso todavia deve acontecer a médio prazo, ficando o enorme desafio de manter esta população protegida para os profissionais e autoridades sanitárias através da vigilância diuturna.
Toda a estrutura governamental é co-responsável, mas também toda a sociedade. Sim, toda a sociedade e todo cidadão. Cada um de nós pode e deve contribuir. É preciso estar sempre alerta. Um ano inteiro de vigília, e ao mesmo tempo muito trabalho de urbanização, proteção e recuperação do meio ambiente.
Educação sanitária na escola e para a família. Higiene e cuidado com os alimentos no domicílio, no bar, na lanchonete no restaurante. Com esses cuidados, a cólera não tem chances.
- Armando Raggio é secretário estadual da Saúde


