VIDAS EXPOSTAS AO DESCASO
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2002
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba Ketlin da Silva Rodrigues, de 3 anos, passou seis dias internada no início do ano para tratar de uma pneumonia, a vizinha Milena Batista, de 4 anos, tem bronquite e o irmão Andrei de 6 meses gêmeo de André já teve diagnosticado início de bronquite. A saúde precária destas crianças não é exceção em algumas comunidades de Curitiba uma das cidades consideradas campeãs em qualidade de vida no País. Na Capital e Região Metropolitana, milhares de famílias sofrem as consequências da falta de oferta ou qualidade dos serviços de saneamento básico.
A situação é crítica nas áreas de invasão. A sensação que se tem é que os moradores não existem. Eles nem mesmo fazem parte de estatísticas e pesquisas, como as do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Como vivem irregulares, em local de propriedade pública ou particular, não dispõem de serviço de saneamento. Quem mais sofre com esta realidade são as crianças que, sem consciência dos perigos, brincam e andam descalças em córregos que são valetas a céu aberto.
Ketlin, Milena e Andrei vivem em uma área particular no Bairro Alto, em Curitiba. No local, chamado de Beco do Rio Negro, moram 20 famílias, cerca de 150 pessoas. ''Todo esgoto vai para o rio e quando chove inunda tudo'', conta Valdicéia da Silva Rodrigues, 20 anos, mãe de Ketlin, dos gêmeos André e Andrei e de Beatriz, de 6 anos. ''Peguei barriga cedo'', diz.
A vizinha Lúcia Cléia Aparecida Batista, 23 anos, reclama da falta de água. As pessoas contam só com água de rua. ''A gente tem que pegar água depois da meia-noite e guardar em balde. Às vezes não tem água nem para dar banho nas crianças'', diz ela, que sustenta cinco filhos com cerca de R$ 60,00 mensais.
A alguns quilômetros, no município de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, cerca de 6 mil pessoas na área de invasão Moinho Velho vivem uma realidade ainda mais crítica. O terreno é irregular. No alto, uma mina d'água já serviu como fonte de água limpa para a população. Hoje, a água que percorre toda a área até desaguar em um afluente do rio Palmital área de manancial que abastece Curitiba tornou-se um córrego mau cheiroso e sujo pelo esgoto e lixo de toda espécie jogado pela população local.
''A Vila Nova é a situação mais complicada que temos. Como é uma invasão não dá para implantar nenhuma estrutura de saneamento, o que significara prevenção'', reconhece o secretário de Saúde de Colombo Helder Lazarotto. Ele também vê dificuldades em regularizar as moradias, já que trata-se de terreno particular e a topografia é muito acidentada.
O resultado dessa combinação de descasos não podia ser outro: acúmulo de lixo, higiene inadequada e problemas de saúde. Segundo a agente comunitária de Saúde Kelly Cristina Okasaki, que trabalha com 200 famílias da vila, os problemas mais frequentes são crianças com vermes, com problemas de pele, apresentando coceira, micoses e ''uma espécie de sarna''.
A vizinha Neuza Pedroso de Abreu, 44 anos, oito filhos e morando há 9 anos no local, confirma. De sua casa, que fica no alto, é possível ver um panorama do lugar: latrinas acima do nível do córrego, muita sujeira espalhada, cães bebendo a água contaminada pelo esgoto e crianças de pé no chão, como seu neto Ronilson Abreu dos Santos, de 9 anos. ''Às vezes as pessoas têm uma espécie de rabugem de cachorro, que fica com a pele coçando e descascando'', diz.


